Olive Schreiner

(1855-1920)

Algumas pesquisas surgem de um interesse passageiro, outras permanecem conosco através de mudanças e etapas da vida. Meu encontro com a obra de Olive Schreiner durante a graduação, em 2021, pertence à segunda categoria. Desde então, seus romances, contos e alegorias têm ocupado um lugar central em minha trajetória acadêmica. O que inicialmente me atraiu foi a originalidade de sua escrita e a forma como ela articula questões de gênero, colonialismo, espiritualidade e liberdade. Com o tempo, esse interesse se transformou em um projeto contínuo de leitura, pesquisa e tradução.

Entre 2023 e 2025, durante o mestrado, dediquei-me à tradução da coletânea Dreams (1890), aprofundando minha dedicação a essa autora cuja obra continua a desafiar classificações dentro da literatura de língua inglesa. Dessa trajetória nasceram os artigos “A natureza africana como cenário alegórico da libertação feminina em Three Dreams in a Desert, de Olive Schreiner” e “Negatividade formativa em The Story of an African Farm, de Olive Schreiner”, além das traduções dos contos “Três sonhos em um deserto” e “O sol repousava sobre minha cama”, disponíveis neste site. Reunidos, esses trabalhos refletem meu interesse em ampliar o acesso à obra de Schreiner e contribuir para sua leitura crítica no contexto dos estudos de literatura inglesa, literatura sul-africana e escrita de autoria feminina.

Traduções

Neste conto alegórico, três visões revelam a luta da mulher para atravessar séculos de opressão e alcançar liberdade. Em cada sonho, surge um obstáculo — a tradição, o medo, o tempo — e a promessa de que a igualdade só nasce através da coragem.

Este é um conto em que Olive Schreiner transforma um sonho em uma jornada moral intensa: o narrador atravessa visões do Inferno e do Céu, confrontando medo, opressão e violência, mas presenciando amor e senso de comunidade, ressignificando o sentido da própria vida cotidiana. Uma fábula filosófica que usa imagens vívidas e alegorias marcantes para questionar a humanidade e sua História.


Artigos

Paraguaçu, v. 3, n. 2, 2026

Este artigo analisa o conto Three dreams in a desert (Três sonhos em um deserto) publicado pela escritora sul-africana Olive Schreiner em 1887, conectando-o aos ideais de libertação feminina e progresso social fundamentais à obra de Schreiner. O conto aborda a história da opressão sexista e o desejo de libertação das mulheres por meio de sonhos que a pessoa narradora tem ao dormir no deserto; é um conto notável por usar do ato de sonhar como moldura para a representação da luta social feminina em três formas pictóricas distintas, e por usar o espaço natural africano como cenário alegórico como materialização do ideal.

Palavras-chave: Literatura sul-africana; Feminismo; Alegoria.

Desleituras na pós-graduação, p. 27-51, 2024

Este artigo explora a obra de Olive Schreiner sob a ótica da negatividade dialética. Schreiner, uma escritora sul-africana, publicou “The story of an African farm” em 1883, uma obra que desde suas primeiras páginas demonstra uma postura crítica em relação à ideologia imperialista predominante na literatura da época. A narrativa do romance acompanha o crescimento de três personagens principais, Em, Lyndall e Waldo, na região semidesértica do karoo sul-africano. O desfecho trágico das personagens, com a morte de Lyndall e Waldo, e o noivado de Em com um homem que originalmente amava Lyndall, é analisado como uma ruptura com os paradigmas tradicionais do romance de aventura e do Bildungsroman (romance de formação). O artigo argumenta que Schreiner rejeita tanto o ideal de Bildung quanto a tradição do romance de aventura, propondo uma nova forma narrativa que questiona as convenções literárias e ideológicas do imperialismo. A autora utiliza elementos narrativos experimentais, especialmente no que tange ao espaço-tempo, ao trabalho e à morte, para evidenciar as tensões do imperialismo. A análise é estruturada em três momentos principais da trajetória de Waldo: negatividade, desencantamento e ruptura. Esses conceitos são utilizados para explorar a infância de Waldo, sua experiência de trabalho na cidade e seu retorno à fazenda, culminando na sua entrega à natureza como uma forma de libertação. O artigo conclui que a negatividade é uma força formativa não apenas na trajetória das personagens, mas também no processo criativo de Schreiner. A obra é vista como um expoente da literatura modernista, que contesta as convenções e subverte a estética tradicional, refletindo as complexidades do imperialismo e da formação de identidade na colônia sul-africana.

O ideal é a concepção da condição mais completamente bela e satisfatória que a imaginação é capaz de produzir. […] Mas o absolutamente ideal sim existe. Quando olho para a luz do sol africano às quatro da tarde, sinto que possuo o ideal, aquilo que não consigo imaginar nada que seja mais perfeito.

Olive Schreiner
carta para Karl Pearson, 5 nov. 1886