O sol repousava sobre minha cama

Olive Schreiner

Conto publicado pela primeira vez em 1890, nos volumes de abril e maio da revista The New Review, páginas 300-309 e 423-431 e, posteriormente, na antologia Dreams, de 1890.

Tradução por Maria Lua Albus © 2025.

Certa noite, no escuro, deitei-me em minha cama. Ouvi os pés do policial batendo na calçada; ouvi as rodas das carruagens voltando das casas de entretenimento; ouvi a risada de uma mulher sob minha janela — e então adormeci. E, no escuro, tive um sonho. Sonhei que Deus levava minha alma para o Inferno.

O Inferno era um lugar bonito; a água do lago era azul.

Eu dizia a Deus: “Gosto deste lugar”.

Deus respondia: “Ora, tu gostas!”

Os pássaros cantavam, a grama chegava à margem, de onde as árvores cresciam. Ao longe, entre as árvores, via belas mulheres caminhando. Suas roupas eram justas e de muitas cores delicadas, e elas eram altas e graciosas e tinham cabelos louros. Suas vestes se arrastavam sobre a grama. Elas deslizavam entre as árvores, e sobre suas cabeças pendiam frutos amarelos como grandes peras de ouro derretido.

Eu dizia: “É muito belo; eu gostaria de subir e provar —”

Deus dizia: “Espera”.

Depois de algum tempo, via passar uma mulher muito bela: ela olhava para um lado e para o outro, abaixava um galho e parecia beijar suavemente o fruto que estava nele, e seguia seu caminho, e seu vestido não fazia nenhum ruído quando ela passava pela grama. E quando não a via mais, de entre os galhos vinha outra mulher tão bela quanto ela, com um delicado manto colorido; ela olhava para um lado e para o outro. Quando não via ninguém, abaixava o fruto e, depois de examiná-lo para encontrar um lugar, encostava a boca nele suavemente e ia embora. E eu via outras e outras mulheres chegando, sem fazer barulho, e elas também se afastaram sobre a grama.

E eu perguntava a Deus: “O que elas estão fazendo?”

Deus dizia: “Elas estão envenenando”.

E eu perguntava: “Como?”

Deus dizia: “Elas tocam o fruto com os lábios e, depois de fazerem uma pequena ferida nele com os dentes, colocam nele o que está debaixo de suas línguas; elas o fecham com os lábios — para que ninguém veja o lugar — e seguem adiante”.

Perguntava a Deus: “Por que elas fazem isso?”

Deus respondia: “Para que outrem não coma”.

Perguntava a Deus: “Mas se elas envenenam todos, nenhuma ousa comer; o que ganham com isso?”

Deus respondia: “Nada”.

Eu dizia: “Elas não têm medo de morder onde outra mordeu?”

Deus dizia: “Elas têm medo. No Inferno todos têm medo”.

Ele me chamava mais adiante. E a água do lago parecia menos azul.

Então, à direita, entre as árvores, havia homens trabalhando. E eu dizia a Deus: “Eu gostaria de ir e trabalhar com eles. O Inferno deve ser um lugar muito frutífero, a grama é tão verde”.

Deus dizia: “Nada cresce no jardim que eles estão fazendo”.

Ficamos olhando, e eu os via trabalhando entre os arbustos, cavando buracos, mas neles não colocavam nada; e depois de cobri-los com gravetos e terra, cada um ia para um lado e sentava-se atrás dos arbustos, observando; e notei que, ao caminhar, cada um colocava o pé no chão, olhando cuidadosamente onde pisava. Eu perguntava a Deus: “O que eles estão fazendo?”

Deus dizia: “Criando armadilhas nas quais seus companheiros podem afundar”.

Eu perguntava a Deus: “Por que eles fazem isso?”

Deus dizia: “Porque cada um pensa que, quando seu irmão cair, ele ascenderá”.

Eu perguntava a Deus: “Como ele ascenderia?”

Deus dizia: “Ele não ascenderá”.

E via os olhos deles brilharem por entre os arbustos.

Eu perguntava a Deus: “Esses homens estão sãos?”

Deus dizia: “Eles não estão sãos; não há um homem são no Inferno”.

E ele me dizia para ir adiante.

E eu olhava para onde estava pisando.

E chegávamos a um lugar onde o Inferno se abria para uma planície, e havia uma grande casa ali. Pilares de mármore sustentavam o telhado, e degraus de mármore branco subiam até a entrada. O vento do céu soprava através dela. Somente na parte de trás havia uma cortina grossa. Belos homens e mulheres se banqueteavam em longas mesas. Eles dançavam, e eu via os mantos das mulheres esvoaçando no ar e ouvia a risada dos homens fortes. Eles se banqueteavam com vinho; vertiam-no de grandes jarras que ficavam um pouco ao fundo, e eu via o vinho reluzir quando o vertiam.

E eu dizia a Deus: “Eu gostaria de subir e beber”. E Deus dizia: “Espera”. E eu via homens entrando na Casa de Banquete; eles vieram pelos fundos e levantaram o canto da cortina nas laterais e entraram rapidamente; e deixaram a cortina cair atrás de si; eles traziam grandes jarras que mal podiam carregar. E os homens e as mulheres se aglomeravam ao redor deles, e os recém-chegados abriam suas jarras e lhes davam de beber do vinho; e via que as mulheres bebiam ainda mais avidamente do que os homens. E, quando os outros já tinham bebido bastante, punham as jarras entre as mais velhas, junto à parede, e tomavam os seus lugares à mesa. E via que algumas das jarras eram muito velhas, mofadas e empoeiradas, mas outras ainda tinham gotas de sumo novo e brilhavam da fornalha.

E eu perguntava a Deus: “O que é isso?” Pois, em meio ao som da cantoria, da dança e do riso entre as taças de vinho, ouvia um pranto.

E Deus dizia: “Afasta-te um pouco”.

E Ele me levava até onde eu via os dois lados da cortina. Atrás da casa estava o lagar onde o vinho era produzido. Via as uvas sendo esmagadas e as ouvia gritar. Eu dizia: “Será que os que estão do outro lado não estão ouvindo?”

Deus dizia: “A cortina é espessa; eles estão festejando”.

E eu dizia: “Mas os homens que entraram por último. Eles viram?”

Deus dizia: “Eles deixaram a cortina cair atrás deles — e se esqueceram!”

Eu perguntava: “Como eles encontraram suas jarras de vinho?”

Deus dizia: “Sob a pressão do lagar, esses são os que chegaram ao topo; eles galgaram a borda, encheram suas jarras e entraram na casa”.

E eu dizia: “E se eles tivessem caído enquanto galgavam —?”

Deus dizia: “Eles teriam se tornado vinho”.

Eu permanecia ali, observando a luz do sol, e tremia.

Deus deitou-se sob a luz do sol, observando também.

Então, entre os comensais, um se levantava e dizia: “Meus irmãos, vamos orar!”

E todos os homens e mulheres se levantavam; os homens fortes abaixavam a cabeça, e as mães juntavam as mãos de seus filhos pequenos e viravam o rosto para cima, para o teto. E o primeiro que se levantara ficava de pé na cabeceira da mesa e estendia as duas mãos, e sua barba era longa e branca, e suas mangas e sua barba tinham sido mergulhadas em vinho; e como as mangas eram largas e fartas, elas estavam encharcadas de muito vinho, que escorria para o chão.

E ele clamava: “Meus irmãos e minhas irmãs, vamos orar”.

E todos os homens e mulheres respondiam: “Oremos”.

Ele clamava: “Por esta bela casa de banquetes nós vos agradecemos, Senhor”.

E todos os homens e mulheres diziam: “Nós vos agradecemos, Senhor”.

“Vossa é esta casa, ó Senhor.”

“Vossa é esta casa.”

“Para nós a fizestes.”

“Para nós.”

“Ó, enchei nossas jarras com vinho, ó Senhor.”

“Nossas jarras com vinho.”

“Dai paz e abundância ao nosso tempo, ó Senhor.”

“Paz e abundância ao nosso tempo” — eu dizia a Deus: “Com quem eles estão falando?” Deus dizia: “Se eu sei de quem eles estão falando?” E via que eles estavam olhando para o teto, mas Deus estava deitado ali, ao sol.

“— ó Senhor!”

“Ó Senhor.”

“Os filhos de nossos filhos, Senhor, se levantarão e vos chamarão de abençoado.”

“Os filhos de nossos filhos, Senhor.” — Eu dizia a Deus: “As uvas estão pranteando!” Deus dizia: “Aquieta-te! Eu as ouço” — “vos chamarão de abençoado”.

“Vos chamarão de abençoado.”

“Derramai mais vinho sobre nós, Senhor.”

“Mais vinho.”

“Mais vinho.”

“Mais vinho!”

“Vinho!!”

“Vinho!!”

“Vinho!!!”

“Ó Senhor!”

Então, homens e mulheres se sentavam e a festa continuava. E as mães vertiam vinho e alimentavam seus filhos pequenos com ele, e os homens levavam a taça aos lábios das mulheres e exclamavam: “Beba, amada!”, e as mulheres enchiam as galhetas de seus amantes e as alteavam; e ainda assim a festa continuava.

Depois de algum tempo, eu olhava e via a cortina que estava pendurada detrás da casa se movendo.

Eu perguntava a Deus: “É o vento?”

Deus respondia: “O vento”.

E me parecia que, contra a cortina, eu via formas de homens e mulheres pressionadas. Depois de algum tempo, os comensais viam o movimento e sussurravam, uns para os outros. Então alguns se levantavam e juntavam as taças mais gastas, e nelas colocavam o que restava no fundo de outras jarras. As mães sussurravam para seus filhos: “Não bebam tudo, guardem uma gotinha quando tiverem bebido”. E quando tinham recolhido todas as gotas, colocavam as taças sob a parte inferior da cortina sem levantá-la. Depois de algum tempo, a cortina parava de se mover.

Eu perguntava a Deus: “Por que está tão quieto?”

Ele respondia: “Eles foram embora para beber”.

Eu dizia: “Eles bebem— os seus iguais!

Deus dizia: “Vem deste lado da cortina, e eles estão muito sedentos”.

Então, a festa continuava e, depois de algum tempo, via uma mão pequena e pálida deslizar por baixo da borda da cortina, ao longo do chão, e ela fez um movimento em direção às jarras de vinho.

E eu perguntava a Deus: “Por que essa mão é tão exangue?”

E Deus dizia: “É uma mão prensada pelo lagar”.

E os homens a viam e erguiam-se de súbito; e as mulheres gritavam e corriam para as grandes jarras de vinho, e jogavam os braços ao redor delas, e gritavam: “Nossas, nossas, nossas amadas!” e enrolavam seus longos cabelos nelas.

Eu perguntava a Deus: “Por que eles têm medo daquela mãozinha?”

Deus respondia: “Porque ela é tão pálida”.

E os homens corriam em grande número em direção à cortina e engalfinhavam-se ali. Eu os ouvia batendo no chão. E quando se afastavam, a cortina ficara lisa e imóvel, e havia uma pequena mancha no chão.

Eu perguntava a Deus: “Por que eles não limpam a mancha?”

Deus dizia: “Eles não podem”.

E eles pegavam pequenas pedras e as colocavam ao longo da borda da cortina para mantê-la abaixada. Então os homens e as mulheres se sentavam novamente às mesas.

E eu perguntava a Deus: “Será que essas pedras vão mantê-la abaixada?”

Deus dizia: “O que tu achas?”

Eu dizia: “E se o vento soprar?”

Deus dizia: “Se o vento soprar?”

E a festa continuava.

E, de repente, clamei a Deus: “Se alguém dentre eles se levantasse da mesa, e se atirasse longe sua taça, e conclamasse: ‘Meus irmãos e minhas irmãs, parem! O que é que estamos bebendo?’ — e com a sua espada cortasse em dois a cortina e, segurando os fragmentos, chamasse: ‘Irmãos, irmãs, vejam! Isso não é vinho, não é vinho! Não é vinho! Meus irmãos, ó, minhas irmãs!’, e ele virasse o—”

Deus dizia: “Aquieta-te! — Veja ali”.

Eu olhava: diante da casa de banquetes, entre a grama, via uma fileira de montes, cobertos de flores, e mármore dourado em suas cabeceiras. Eu perguntava a Deus o que eram.

Ele respondia: “São os túmulos daqueles que se levantaram durante a festa e clamaram”.

E eu perguntava a Deus como eles chegaram ali.

Ele dizia: “Os homens da casa do banquete se levantaram e os abateram”.

Eu perguntava: “Quem os enterrou?”

Deus dizia: “Os homens que os abateram”.

Eu perguntava: “Como foi que eles os abateram e depois colocaram mármore sobre eles?”

Deus dizia: “Porque os ossos pranteavam, eles os cobriram”.

E, entre a grama e as ervas daninhas, via um corpo insepulto; e eu perguntava a Deus por que estava ali.

Deus dizia: “Porque ele foi abatido ainda ontem. Daqui a pouco, quando a carne tiver se desprendido de seus ossos, eles também o enterrarão e plantarão flores sobre ele”.

E, ainda assim, a festa continuava.

Homens e mulheres sentavam-se às mesas, sorvendo grandes cálices. Alguns se levantavam e se abraçavam, dançavam e cantavam. Eles selavam promessas com um brinde e beijavam os lábios vermelhos de sangue uns dos outros.

Mais e mais, avultavam-se os festejos.

Os homens, depois de beberem até não poderem mais, jogavam o que restava em seus copos ao teto e deixavam jorrar em cascatas. As mulheres tingiam as roupas de seus filhos com o vinho e os alimentavam com ele até que suas pequenas bocas ficassem vermelhas. Às vezes, enquanto os dançarinos rodopiavam, eles derrubavam uma jarra e suas roupas ficavam cobertas de manchas. As crianças sentavam-se no chão com grandes tigelas de vinho e flutuavam nelas folhas de roseira, como se fossem barcos. Elas colocavam as mãos no vinho e sopravam grandes bolhas vermelhas.

E, mais e mais, avultavam-se os festejos, as danças cada vez mais desvairadas e os cantos cada vez mais altos. Mas aqui e ali, entre os convivas, havia aqueles que não se divertiam. Via que nas mesas, aqui e ali, havia homens sentados com os cotovelos sobre o tampo e as mãos guardando os olhos; eles olhavam para a taça de vinho à sua frente e não bebiam. E quando alguém os tocava de leve no ombro, pedindo-lhes que se levantassem, dançassem e cantassem, eles se assustavam, olhavam para baixo e ficavam sentados observando o vinho na taça, mas não se moviam.

E aqui e ali eu via uma mulher sentada à parte. As outras dançavam, cantavam e alimentavam seus filhos, mas ela ficava sentada em silêncio, com a cabeça inclinada, como se estivesse ouvindo. Seus filhos pequenos lhe puxavam as vestes; ela não os via; estava ouvindo algum som, mas não se mexia.

Mais e mais, avultavam-se os festejos. Os homens bebiam até não poder mais e deitavam a cabeça sobre a mesa, dormindo pesadamente. As mulheres, que não conseguiam mais dançar, recostavam-se nos bancos com a cabeça apoiada nos ombros de seus amantes. As crianças pequenas, enjoadas pelo vinho, deitavam-se nas bainhas das vestes de suas mães. Às vezes, um homem se levantava de repente e, cambaleante, esbarrava nas mesas e derrubava os bancos; alguns se apoiavam nas balaustradas, nauseadíssimos. Aqui e ali, alguém se levantava, cambaleava até as jarras de vinho e se deitava sob elas. Abria a torneira da jarra, mas o sono lhe dominava quando estava deitado, e o vinho corria.

Lentamente, a fina corrente vermelha corria pelo piso de mármore branco; chegava aos degraus de pedra; lentamente, lentamente, lentamente, escorria, de degrau a degrau, de degrau a degrau: depois afundava na terra. Uma fumaça branca e tênue subia.

Eu ficava em silêncio, não conseguia respirar, mas Deus me chamava para ir adiante.

Depois de viajar um pouco, chegava a um lugar onde, sobre sete colinas, havia as ruínas de uma poderosa casa de banquetes, maior e mais forte do que a que eu tinha visto.

Eu perguntava a Deus: “O que os homens que a construíram fizeram aqui?”

Deus respondia: “Eles se banquetearam”.

Eu perguntava: “Com o quê?”

Deus dizia: “Com vinho”.

E olhava, e me parecia que atrás das ruínas ainda havia uma grande cavidade circular dentro da terra, onde ficara um pé do lagar.

Eu perguntava a Deus: “Como foi que essa grande casa caiu?”

Deus respondia: “Porque a terra estava encharcada”.

Ele me chamava para ir mais adiante.

Por fim, chegávamos a uma colina onde havia águas azuis e mármore branco sobre a terra. Eu perguntava a Deus: “O que havia aqui antes?”

Deus respondia: “Uma casa de prazeres”.

Eu olhava, e a meus pés havia grandes pilares. Eu exclamava de alegria para Deus: “O mármore floresce!”

Deus dizia: “Sim, era uma casa encantada. Nunca houve nem haverá outra igual a ela. Os pilares e os pórticos floresciam, e as taças de vinho eram como flores recém-colhidas; deste lado, toda a cortina era bordada com belos desenhos, em fios de ouro”.

Eu perguntava a Deus: “Como foi que ela caiu?”

Deus respondia: “O lado do lagar era escuro.”

E enquanto viajávamos, chegávamos a um lugar onde havia uma grande cordilheira de areia, onde corria um rio escuro; e ali havia dois grandes montes.

Eu dizia a Deus: “Eles são muito imponentes”.

Deus respondia: “Sim, muito vultuosos”.

E eu parava, escutando.

Deus me perguntava o que eu estava ouvindo.

E eu dizia: “Um som de choro, e ouço o som de golpes, mas não sei dizer de onde vem”.

Deus dizia: “É o eco do lagar que ainda permanece entre as cornijas sobre os montes. Aqui havia uma casa de banquetes”.

E ele me chamava para ir mais longe.

Em uma colina estéril, onde o solo era árido, Deus me disse para parar. E olhava em volta.

Deus dizia: “Um dia houve uma casa de banquetes aqui”.

Eu dizia a Deus: “Não vejo sequer um sinal!”

Deus dizia: “Não ficou pedra sobre pedra que não tenha sido destruída”. Olhava em volta e, na encosta da colina, havia um túmulo solitário.

Eu perguntava a Deus: “O que há ali?”

Ele respondia: “Um ramo de videira, pisado pelo lagar!”

E na cabeceira da sepultura havia uma cruz, e em seu pé havia uma coroa de espinhos.

Quando me virava para ir embora, olhava para trás. O lagar e a casa de banquetes haviam desaparecido, mas a sepultura ainda estava de pé.

E quando chegava à beira de um longo cume, abria-se diante de mim uma ampla planície de areia. Quando olhava para baixo, via grandes pedras despedaçadas, e a areia do deserto as havia coberto pela metade.

Eu dizia a Deus: “Há algo escrito nelas, mas não consigo ler”.

E Deus soprava a areia do deserto, e eu lia o que estava escrito: “Pesado na balança e faltou—” mas a última palavra estava faltando.

E eu dizia a Deus: “Era uma casa de banquetes?”

Deus dizia: “Sim, uma casa de banquetes”.

Eu dizia: “Havia um lagar aqui?”

Deus dizia: “Havia um lagar”.

Não fazia mais nenhuma pergunta. Eu estava muito cansado; protegia meus olhos com a mão e olhava através da luz rosada do entardecer.

Ao longe, do outro lado da areia, via duas figuras de pé. Com as asas erguidas bem acima de suas cabeças e rostos severos, nem homens nem animais, eles olhavam para a areia do deserto, observando, observando, observando! Não perguntava a Deus o que eles eram, pois sabia qual seria a resposta.

E, cada vez mais longe, à luz do entardecer, olhava com meus olhos sombreados.

Bem longe, onde as areias eram espessas e pesadas, via um pilar solitário de pé: o capitel havia caído e a areia o havia enterrado. Sobre o pilar quebrado estava sentada uma coruja-do-deserto cinzenta, com as asas dobradas; e, à luz da noite, via a raposa do deserto passar por ela, arrastando sua cauda pela areia.

Mais adiante, ao olhar para o deserto, via que a areia se amontoava como se estivesse cobrindo algo.

Clamava a Deus: “Ó, estou tão cansado”.

Deus dizia: “Tu viste apenas metade do Inferno”.

Eu dizia: “Não posso ver mais, tenho medo do Inferno. Em meu pequeno e estreito caminho, não ouso andar porque acho que alguém cavou uma armadilha para mim; e se coloco minha mão para pegar uma fruta, eu a retiro porque acho que ela já foi beijada. Se eu olhar para as planícies, os montes são montes de sepultamento; e quando passo entre as pedras, ouço-as gritar em voz alta. Quando vejo homens dançando, ouço o tempo passar com soluços; e o vinho deles é vivo! Ó, não posso suportar o Inferno!”

Deus perguntava: “Para onde tu irás?”

Eu dizia: “Para a terra de onde vim; era melhor lá”.

E Deus ria de mim; e eu me perguntava por que ele ria.

Deus dizia: “Vem, e eu te mostrarei o Céu”.


E, em parte, acordei. Tudo era quieto e escuro; o som das carruagens se extinguira na rua; a mulher que ria desaparecera; e não mais ouvi o passo do policial. Na escuridão, pareceu-me que uma grande mão estava sobre meu coração e o esmagava. Tentei respirar e revirei-me na cama; depois, adormeci novamente e sonhei.

Deus me levava até o limite daquele mundo. O próprio fim. Eu olhava para baixo. Parecia-me que o abismo era insondável, e então via duas pontes cruzando-o, ambas inclinadas para cima.

Eu perguntava a Deus: “Não há outro meio pelo qual os homens possam atravessá-lo?”

Deus dizia: “Há um; ele se eleva longe daqui e se inclina diretamente para cima”.

Eu perguntava a Deus quais eram os nomes das pontes.

Deus dizia: “O que importa os nomes? Chama-as de a Boa, a Verdadeira, a Bela, se quiseres — tu ainda não as entenderás”.

Eu perguntava a Deus por que eu não conseguia ver a terceira.

Deus dizia: “Ela é vista apenas por aqueles que a escalam”.

Eu perguntava: “Todos eles levam a um único céu?”

Deus dizia: “Todo o Céu é um só: no entanto, algumas partes são mais altas que outras; aqueles que alcançam o mais alto podem sempre descer para descansar no mais baixo; mas aqueles que estão no mais baixo podem não ter forças para subir ao mais alto; no entanto, a luz é toda uma”.

E via inúmeras marcas de pés atravessando a ponte mais próxima de mim, que era mais larga que a outra. Eu perguntava a Deus por que tantos passavam por ela.

Deus dizia: “Ela se inclina menos profundamente e leva ao primeiro céu”.

E via que algumas das marcas de pés eram de pés que estavam voltando. Eu perguntava a Deus por que isso acontecia.

Ele dizia: “Nenhum homem que tenha entrado no Céu jamais o deixará; mas alguns, depois de percorrerem metade do caminho, voltam para trás, porque temem que não haja terra além”.

Eu perguntava: “Ninguém jamais voltou?”

Deus dizia: “Não; uma vez no Céu, sempre no Céu”.

E Deus me levava até lá. Quando chegávamos a uma das grandes portas — pois o Céu tem mais de uma porta, e todas estão abertas — os portais se erguiam tão alto de cada lado que eu não conseguia ver o topo, ou mesmo se havia um.

E as portas me pareciam tão largas que todo o Inferno poderia entrar por elas.

Eu perguntava a Deus: “Qual é o maior, o Céu ou o Inferno?”

Deus respondia: “O Inferno é largo, mas o Céu é mais profundo. Todo o Inferno poderia ser engolido pelo Céu, mas nem todo o Céu poderia ser engolido pelo Inferno”.

E nós entrávamos. Era uma terra grande e calma. As montanhas se erguiam por todos os lados, e havia uma luz pálida e clara, e via que ela vinha das rochas e pedras. Eu perguntava a Deus por que isso acontecia.

Mas Deus não me respondia.

Eu olhava e me perguntava, pois achava que o céu seria diferente. Depois de algum tempo, a luz começava a ficar mais brilhante, como se o dia estivesse nascendo, e eu perguntava a Deus se o sol não iria nascer.

Deus dizia: “Não; estamos indo para onde as pessoas estão”.

E, à medida que avançávamos, o sol ia ficando cada vez mais brilhante, até que era como um amanhecer escaldante; e sobre a rocha havia flores desabrochando, e árvores floresciam à beira da estrada; e riachos de água corriam por toda parte, e eu ouvia o canto dos pássaros; eu perguntava a Deus onde eles estavam.

Deus dizia: “São as pessoas chamando umas às outras”.

E quando nos aproximávamos, eu os via caminhando, e eles brilhavam enquanto caminhavam. Eu perguntava a Deus por que eles não usavam vestes.

Deus dizia: “Porque todo o corpo deles dá luz; eles não ousam cobrir nenhuma parte”.

E eu perguntava a Deus o que eles estavam fazendo.

Deus dizia: “Iluminando as plantas para que cresçam”.

E via que alguns estavam trabalhando em grupos, e outros sozinhos, mas a maioria estava em duplas, às vezes dois homens e às vezes duas mulheres; mas geralmente havia um homem e uma mulher; e eu perguntava a Deus por que isso acontecia.

Deus dizia: “Quando um homem e uma mulher brilham juntos, eles produzem a luz mais perfeita. Muitas plantas precisam disso para crescer. No entanto, há muitos tipos de plantas no Céu, e elas precisam de muitos tipos de luz.”

E uma pessoa em meio ao povo vinha correndo em minha direção e, quando se aproximava, parecia-me que ele e eu havíamos brincado juntos quando éramos crianças e que tínhamos nascido no mesmo dia. E quando contava a Deus o que sentia; Deus dizia: “Todos os homens se sentem assim no Céu quando outro vem em sua direção”.

E aquele que correra em minha direção segurava minha mão e me conduzia através das luzes brilhantes. E quando chegávamos entre as árvores, ele cantava em voz alta, e sua companhia respondia, e era uma mulher, e ele me mostrava a ela. Ela dizia: “Ele precisa de água”; pegava um pouco em suas mãos e me dava de beber (eu tivera medo de beber da água do Inferno), e eles colhiam frutas para mim e me davam de comer. Eles diziam: “Nós brilhamos muito para fazê-las amadurecer”, e riam juntos quando me viam comê-las.

O homem dizia: “Ele está muito cansado; precisa dormir” (pois eu não ousara dormir no Inferno), e deitava minha cabeça no joelho de sua companheira e estendia o cabelo dela sobre mim. Eu dormia e, durante todo o tempo em que estava adormecido, pensava estar ouvindo os pássaros chamando por mim. Quando acordava, era como se fosse de manhã cedo, com o orvalho cobrindo tudo.

O homem pegava minha mão e me levava a um lugar escondido entre as rochas. O solo era muito duro, mas dele brotavam pequenas plantas, e havia um pequeno riacho correndo. Ele dizia: “Este é um jardim que estamos fazendo, ninguém mais sabe disso. Nós brilhamos aqui todos os dias; veja, o chão rachou com o nosso brilho, e este pequeno riacho está brotando. Veja, as flores estão crescendo”.

E ele subia nas rochas e colhia do alto duas pequenas flores cobertas de orvalho e as dava para mim. Eu pegava uma em cada mão; minhas mãos brilhavam quando eu as segurava. Ele dizia: “Este jardim é para todos quando estiver terminado”. E ele ia para junto de sua companheira, e eu saía para a grande estrada.

Enquanto caminhava na luz, ouvia um som alto de muita música. Quando me aproximava, via uma pessoa com os olhos fechados, cantando, e seus companheiros estavam ao seu redor; e a luz sobre os olhos fechados era mais brilhante do que qualquer outra coisa que eu tivesse visto no Céu. Eu perguntava a um deles quem era. E ele dizia: “Silêncio! É o nosso pássaro canoro”.

E eu perguntava por que os olhos brilhavam tanto.

E ele dizia: “Eles não podem ver, e nós os beijamos até brilharem tanto”.

E as pessoas se reuniam em torno dele.

E quando me afastava um pouco mais, via uma multidão atravessando entre as árvores de luz rindo abundantemente. Quando se aproximavam, via que carregavam uma pessoa sem mãos ou pés. E uma luz vinha dos membros mutilados, tão brilhante que eu não conseguia olhar para eles.

E eu dizia a um deles: “O que está acontecendo?”

Ele respondia: “Este é nosso irmão, que uma vez caiu e perdeu as mãos e os pés e, desde então, não consegue mais se defender; mas nós tocamos os cotos mutilados tantas vezes que agora eles brilham mais do que qualquer coisa no Céu. Nós o trazemos adiante para que ele possa brilhar em coisas que precisam de muito calor. Ninguém pode ficar com ele por muito tempo, ele pertence a todos”, e eles seguiam entre as árvores.

Eu dizia a Deus: “Esta é uma terra estranha. Eu achava que a cegueira e a mutilação eram grandes males. Aqui os homens as transformam em alegria”.

Deus dizia: “Tu achavas então que o amor necessitava de olhos e mãos?”

E eu caminhava pela estrada brilhante ladeada com palmeiras. Eu dizia a Deus: “Desde que eu era uma criancinha e me sentava sozinho e chorava, eu sonhava com esta terra, e agora não irei embora novamente. Ficarei aqui e brilharei”. Começava a tirar minhas vestes para brilhar como os outros naquela terra, mas quando olhava para baixo, via que meu corpo não emitia luz. Eu perguntava a Deus: “Por que isso acontece?”

Deus dizia: “Não há sangue turvo em teu coração; não há amargura contra ninguém?”

E eu dizia: “Sim”; e pensava: “Agora é o momento em que direi a Deus o que sempre quis dizer a Ele: como meus semelhantes me trataram mal. Como eles me entenderam mal. Como eu pretendia ser magnânimo e generoso com eles, e eles—”. E começava a contar a Deus, mas quando olhava para baixo, todas as flores estavam murchando sob minha respiração, e ficava em silêncio.

Então, Deus me chamava para subir mais alto, e eu envolvia meu manto e o seguia.

E as rochas se tornavam mais altas e mais íngremes de todos os lados, e finalmente chegávamos a um lugar onde se erguia uma grande montanha, cujo cume se perdia nas nuvens. Em sua encosta, via homens trabalhando, e eles talhavam a terra com enormes picaretas; e via que eles trabalhavam arduamente. E alguns trabalhavam em grupos, mas a maioria trabalhava sozinha. E via as gotas de suor pingarem de suas testas, e os músculos de seus braços se sobressaírem com o labor. E eu dizia: “Não pensava que no céu veria homens trabalhando assim!” E pensava no jardim onde os homens cantavam e amavam, e me perguntava se alguém escolheria trabalhar naquela encosta nua da montanha. E via na testa dos homens, enquanto trabalhavam, uma luz, e as gotas de suor que pingavam deles enquanto trabalhavam reluziam também.

Então eu perguntava a Deus o que eles estavam buscando.

E Deus tocava meus olhos, e eu via que o que eles encontravam eram pequenas pedras, que antes eram brilhantes demais para eu ver; e via que a luz das pedras e a luz na testa dos homens eram a mesma. E via que, quando alguém encontrava uma pedra, passava-a para seu companheiro, e este para outro, e este para outro. Nenhum homem guardava a pedra que encontrava. E, às vezes, eles se reuniam numa multidão quando uma grande pedra era encontrada e davam um grande grito que fazia o céu ressoar; depois, voltavam a trabalhar.

E eu perguntava a Deus o que eles faziam com as pedras que finalmente encontravam. Então, Deus tocava meus olhos novamente para torná-los mais fortes, e eu olhava, e aos meus pés havia uma poderosa coroa. A luz jorrava dela.

Deus dizia: “Cada pedra que eles encontrarem será colocada aqui”.

E a coroa era trabalhada de acordo com um motivo maravilhoso; um motivo que compunha toda a coroa, mas cada parte era diversa.

Eu perguntava a Deus: “Como cada homem sabe onde colocar sua pedra, de modo que o motivo seja burilado?”

Deus dizia: “Porque, na luz que sua testa emite, cada homem vê fracamente delineada aquela coroa completa”.

E eu perguntava: “Mas como é que cada pedra está unida ao longo de suas bordas às suas companheiras, de modo que não há emenda em lugar algum?”

Deus dizia: “As pedras estão vivas; elas crescem”.

E eu dizia: “Mas o que cada homem ganha com seu trabalho?”

Deus dizia: “Ele vê seu contorno preenchido”.

Eu dizia: “Mas as pedras que foram colocadas por último cobrem as que foram colocadas primeiro; e essas serão novamente cobertas pelas que vierem depois”.

Deus dizia: “Elas estão cobertas, mas não escondidas. A luz é a luz de todos. Sem o primeiro, não há o último”.

E eu dizia a Deus: “Quando essa coroa terminará?”

E Deus dizia: “Olha para cima!”

Olhava para cima e via a montanha assomar-se acima de mim, mas não podia ver seu cume; ele estava perdido nas nuvens.

Deus não dizia mais nada.

Olhava para a coroa, e então um desejo me tomava. Como a paixão de uma mãe pelo filho que a morte levou; como o anseio de um amigo pelo amigo que a vida enterrou; como a fome de olhos moribundos por uma vida que está se esvaindo; como a sede de uma alma por amor em seu primeiro despertar na primavera, assim, mas mais feroz era o anseio em mim.

Clamava a Deus: “Eu também trabalharei aqui; eu também colocarei pedras no maravilhoso motivo; ele crescerá sob minhas mãos. E se, porventura, trabalhando aqui por anos, eu não encontrar uma pedra sequer, pelo menos estarei com os homens que trabalham aqui. Ouvirei seu grito de alegria quando cada pedra for encontrada; participarei de seu triunfo, gritarei com eles; verei a coroa crescer.” Meu desejo era tão grande que, ao olhar para a coroa, pensava que uma luz fraca também caísse de minha testa.

Deus dizia: “Tu não estás ouvindo o canto nos jardins?”

Eu dizia: “Não, não ouço nada; vejo apenas a coroa”. E ficava mudo de desejo; esquecia todas as flores do Céu inferior e o canto de lá. Corria para frente, jogava meu manto na terra e me curvava para pegar uma das poderosas ferramentas que estavam ali. Não conseguia levantá-la da terra.

Deus dizia: “Onde mereceste tu a força para levantá-la? Pega teu manto”.

Pegava meu manto e seguia para onde Deus me chamava; mas olhava para trás e via a coroa ardente, a coroa que eu amava.

Subíamos cada vez mais alto, e o ar ficava mais rarefeito. Não havia uma árvore ou planta sequer nas rochas nuas, e a quietude era ininterrupta. Minha respiração era laboriosa e rápida, e o sangue se acumulava na ponta dos meus dedos. Eu perguntava a Deus: “Isto é o Céu?”

Deus respondia: “Sim, é o mais alto”.

E continuamos subindo. Eu dizia a Deus: “Não consigo respirar tão no alto”.

Deus dizia: “Porque o ar é puro?”

Minha cabeça ficava zonza e, à medida que eu subia, o sangue jorrava das pontas dos meus dedos.

Então chegávamos ao topo de uma montanha erma.

Nenhum ser vivo se movia ali, mas ao longe, em um pico isolado, via uma figura solitária de pé. Eu não sabia dizer se era homem ou mulher, pois em parte parecia a figura de uma mulher, mas seus membros eram os poderosos membros de um homem. Eu perguntava a Deus se era homem ou mulher.

Deus dizia: “No Céu menor, o sexo reina supremo; no maior, ele não é notado; mas no supremo, ele não existe”.

E via a figura se curvar sobre seu trabalho e trabalhar arduamente, mas não podia ver o que fazia.

Eu perguntava a Deus: “Como veio parar aqui?”

Deus respondia: “Por uma escada sangrenta. Degrau por degrau, subiu do Inferno mais profundo e, dia após dia, à medida que o Inferno se distanciava e o Céu não se aproximava, ficava sozinho entre dois mundos. Hora após hora, nessa luta amarga, seus membros se tornaram mais largos, até que caíram de si, trapo após trapo, as vestes com as quais havia começado. Gotas pingaram de seus olhos quando os forçava; cada degrau que subia estava molhado de sangue. Então veio para cá”.

E eu pensava no jardim onde os homens cantavam de braços dados uns com os outros; e na encosta da montanha onde trabalhavam em parceria. E estremecia.

E perguntava: “Não está terrivelmente só aqui?”

Deus respondia: “Nunca está só!”

Eu dizia: “O que ganha com todo o seu trabalho? Não vejo nada que lhe dê retorno”.

Então Deus tocava meus olhos, e eu via estendidas sob nós as planícies do Céu e do Inferno, e tudo o que havia dentro delas.

Deus dizia: “Daquela altura solitária em que se encontra, todas as coisas estão visíveis. Lhe é claro o brilho no jardim, vê a flor brotar e os riachos brilharem; nenhuma exclamação sobe a encosta da montanha, mas seu ouvido pode ouvia-la. Vê a coroa crescer e a luz brotar dela. Todo o Inferno lhe é visível. Vê os caminhos subindo. Para si, o Inferno é a semente da qual o céu brota. Vê a própria seiva subindo”.

E via a figura curvar-se sobre seu trabalho, e a luz de seu rosto incidir sobre ele.

E eu perguntava a Deus: “O que está fazendo?”

E Deus dizia: “Música!”

E ele tocava meus ouvidos, e eu a ouvia.

Depois de um longo tempo, sussurrava para Deus: “Isto é o Céu”.

E Deus me perguntava por que eu estava chorando. Mas eu não conseguia responder por tamanha alegria.

E o rosto se afastava de seu trabalho e a luz caía sobre mim. Então, ela ficava tão brilhante que eu não conseguia ver as coisas separadamente; e eu não sabia dizer quem era Deus, quem era o homem ou quem era eu; estávamos todos misturados. Clamava a Deus: “Onde estás tu?”, mas não obtinha resposta, apenas música e luz.

Mais tarde, quando já havia escurecido a ponto de que eu podia ver as coisas separadamente, descobria que eu estava ali enrolado em meu insignificante, roto e terreno manto marrom, e Deus e a figura estavam separados um do outro e de mim.

Não ousava dizer que iria fazer música ao lado da figura. Eu sabia que não conseguiria alcançar nem mesmo seu joelho, nem mover o instrumento que tocava. Mas pensava em ficar ali no meu minúsculo pico e cantar para acompanhar aquela grande música. E tentava, mas minha voz falhava. Ela era aguda e trêmula. Não conseguia cantar aquela melodia. Ficava em silêncio.

Então Deus me indicava que eu deveria sair do Céu.

E clamava a Deus: “Ó, deixa-me ficar aqui! Se, de fato, como sei que é, não sou grande o suficiente para cantar na montanha, nem forte o suficiente para trabalhar na encosta, nem brilhante o suficiente para resplandecer e amar no jardim, pelo menos deixa-me descer até o grande portal; humildemente me ajoelharei ali, varrendo; e, quando os salvos passarem, verei a luz em seus rostos. Ouvirei o canto no jardim e a exclamação nas encostas —”.

Deus dizia: “Não é possível”; ele indicava.

E eu clamava: “Se não posso ficar no Céu, então deixa-me descer ao Inferno e agarrarei as mãos dos homens e mulheres de lá; e lentamente, segurando as mãos uns dos outros, subiremos.”

Ainda assim, Deus apontava adiante.

Atirava-me sobre a terra e gritava: “A Terra é tão pequena, tão ruim! Não é justo que uma alma veja o Céu e seja expulsa novamente!”

E Deus colocava a mão sobre mim e dizia: “Volta para a Terra: aquilo que tu procuras está lá.

Acordei: era manhã. O silêncio e a escuridão da noite haviam desaparecido. Pela janela estreita do sótão, vi a luz de outro dia. Fechei os olhos e me virei para a parede: Não consegui olhar para o mundo cinzento e monótono.

Nas ruas abaixo, homens e mulheres passavam às centenas; eu ouvi o bater de seus pés na calçada. Homens a caminho do trabalho; empregados levando recados; meninos correndo para a escola; professores cansados andando lentamente pela velha rua; prostituídos, homens e mulheres, arrastando os pés cansados após a libertinagem da noite anterior; artistas com passos rápidos e impacientes; comerciantes em busca de encomendas; crianças em busca de pão. Eu ouvi a multidão passar. E, na saída do beco, na esquina da rua, um realejo quebrado tocando; às vezes, ele estremecia e quase parava, depois continuava novamente, como uma voz humana alquebrada.

Eu ouvi, mas meu coração mal se moveu; estava frio como chumbo. Eu não consegui suportar pensar no longo dia que tinha pela frente e tentei dormir novamente, mas ainda podia ouvir os pés na calçada. E, de repente, ouvi-os gritar alto enquanto batiam: “Estamos buscando! Buscando! Buscando!” e o realejo quebrado na esquina da rua soluçar: “A Bela! A Bela! A Bela!” E meu coração, que estava morto, gritou a cada batida: “Amor!—Verdade!—A Bela!—A Bela!” Era a música que eu tinha ouvido no Céu, mas que não podia cantar lá.

E acordei completamente.

Sobre o cobertor desbotado, do outro lado da cama, repousava uma longa faixa amarela da pálida luz do sol londrino. Ela entrava pela janela estreita do meu sótão.

Eu ri. Levantei-me.

Alegrei-me com o longo dia pela frente.

Paris e Londres