D. H. Lawrence
(1885-1930)
Meu encontro com a obra de D. H. Lawrence durante a graduação foi decisivo para a forma como passei a ler e estudar literatura. Foi por meio de suas narrativas, personagens e experimentações formais que aprofundei meu interesse pelo modernismo de língua inglesa, explorando questões ligadas à subjetividade, ao corpo, à morte e às transformações culturais da virada do século. As pesquisas de iniciação científica que desenvolvi nesse período foram meu primeiro espaço de investigação acadêmica mais sistemática e ajudaram a definir muitos dos temas que continuam presentes em meus interesses de pesquisa.
Dessa experiência surgiram os artigos “O paradoxo do Bildungsroman modernista: co-narrativas em Filhos e Amantes (Sons and Lovers, 1913) de D. H. Lawrence e versão cinematográfica homônima (1960)” e “Ruína do corpo narrativo na obra derradeira de D. H. Lawrence”. Embora escritos no início da minha trajetória acadêmica, esses trabalhos refletem um interesse que permanece vivo: compreender como a literatura modernista desafia formas convencionais de narrar e apresentar a experiência humana. Revisitar Lawrence é também revisitar as origens da minha formação como pesquisadora da literatura inglesa e modernista.
Artigos
Cerrados, v. 31, n. 59, 2022
D. H. Lawrence morreu em 1930, de tuberculose. Escritor de corpos embricados no ciclo de criação e destruição da natureza — ciclo cuja reificação é epitome da sociedade industrializada — em sua lenta e febril marcha para a morte Lawrence esboça uma metafísica da ruína. Este artigo traz dois ensaios, um romance e um poema seus, pensados como textos nos quais a ruína do romance, mais do que tema, é mote da impossibilidade de a narrativa constituir-se como experiência e escrita totalizante. A análise é atravessada por Theodor W. Adorno na dialética do romance, e na tensão entre cultura e morte.
Palavras-chave: D. H. Lawrence, dialética do romance, modernismo em língua inglesa

Miguilim, v. 11, n. 1, 2022
Este artigo analisa o romance Filhos e Amantes (Sons and Lovers, 1913), de D. H. Lawrence, e sua versão cinematográfica de mesmo nome (1960), dirigida por Jack Cardiff, partindo da hipótese interpretativa de que a focalização dupla por Paul e Gertrude, estruturalmente amalgamados pelo texto do narrador, resulta em conarrativas indicativas do paradoxo da forma do Bildungsroman — circunscrito na tensão indecidível e ao mesmo tempo suplementar entre individualidade e coletivismo, tradição e experimentação. Por meio de uma leitura cerrada de excertos do romance e cenas do filme, discutimos como a dupla focalização resulta em uma aporia que inscreve em Filhos e Amantes uma dimensão de transgressão das convenções desse gênero na notável busca pelo experimentalismo característico do modernismo literário em língua inglesa. Os estudos narratológicos de Bal (2009), estilísticos de Leech e Short (2007), cinematográficos de Bordwell e Thompson (2013) e Bazin (1997), e intermidiáticos de Rajewsky (2005) fundamentam a análise estrutural dos objetos, enquanto Adorno (2012a, 2012b), Beards (1974) e Jeffers (2005) embasam a discussão acerca das convenções e transgressões sobre o romance de formação perpetradas por Lawrence e Cardiff.
Palavras-chave: Filhos e Amantes; Ponto de vista; Adaptação cinematográfica; Modernismo em língua inglesa.

É preciso ter coragem para perseguir novas questões sem usar de abstrações; é preciso apresentar-nos com sentimentos novos, realmente novos, uma linha totalmente inédita de emoção, que nos resgatará da rotina emocional.
D. H. Lawrence
Ao invés de choramingar sobre o que é e o que um dia foi, ou inventar novas sensações na mesma linha das antigas, é preciso escarar um caminho, feito um buraco na parede.
Surgery for the novel — or a bomb, 1923