Ensino de Literatura

Em 2025, iniciei meu doutorado com uma pergunta que tem orientado grande parte da minha trajetória acadêmica: como ensinar literatura de modo que a interpretação se torne uma prática investigativa, e não apenas a aplicação de teorias e abordagens prontas? Para explorar essa questão, desenvolvo uma proposta de ensino de literatura fundamentada na lógica de Charles S. Peirce e na teoria da interpretação, dialogando sobretudo com a lógica clássica, a hermenêutica e as abordagens de aprendizado baseado em inquirição (inquiry-based learning). A pesquisa é financiada pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e integra as atividades do Centro de Estudos de Literatura, Teorias do Fenômeno Religioso e Artes (CELTA-Unicamp).

Esse trabalho reúne interesses que vêm se consolidando ao longo dos anos: a leitura literária, a argumentação, a construção do conhecimento e os processos de compreensão. Até o momento, a pesquisa resultou no ensaio “Em busca da compreensão: ‘O Chinago’ e a catástrofe hermenêutica” e no Minicurso “Escrita crítica e lógica do argumento”, iniciativas que buscam aproximar os estudos literários de práticas de investigação e reflexão crítica. Meu objetivo é contribuir para o debate sobre ensino de literatura, teoria da interpretação, hermenêutica literária e metodologias de aprendizagem baseadas em inquirição, propondo caminhos que valorizem a curiosidade intelectual e a construção compartilhada de sentidos.

Artigos

(previsão de publicação em 2027)

Este ensaio investiga a incompreensão como problema hermenêutico, ético e político a partir do conto O Chinago, de Jack London, em diálogo com a teoria do conhecimento de Bernard Lonergan em Insight. Tomando a trajetória de Ah Cho como eixo analítico, o texto argumenta que a compreensão não depende apenas da capacidade individual de produzir sentido, mas também das condições linguísticas, culturais e institucionais que permitem ou interditam esse processo. No contexto colonial taitiano representado por London, a multiplicidade de línguas e códigos jurídicos não constitui simples obstáculo comunicativo, mas opera como forma de estratificação social e dispositivo de poder. A análise mostra que trabalhadores chineses, agentes coloniais e autoridades francesas ocupam posições distintas em uma hierarquia da inteligibilidade, na qual o acesso à interpretação dos fatos é distribuído de modo desigual. A partir dos conceitos lonerganianos de insight direto e inverso, o artigo propõe que a narrativa expõe uma catástrofe hermenêutica: Ah Cho alcança uma compreensão extrema e intransmissível no instante de sua execução, enquanto o leitor e a crítica são conduzidos a reconhecer os limites da inteligibilidade diante de arquivos, testemunhos e sistemas opacos. Conclui-se que O Chinago não apenas dramatiza falhas de tradução e julgamento, mas evidencia como a interdição da compreensão pode prolongar-se no tempo, impondo à crítica a tarefa de investigar os restos, lacunas e zonas abissais do sentido.


Cursos

(em breve)

O minicurso “Escrita crítica e lógica do argumento” propõe uma introdução aos fundamentos da lógica do argumento aplicada à escrita acadêmica, com ênfase nos estudos da linguagem e da literatura. A partir da articulação entre lógica clássica e teoria da argumentação, o curso examina os princípios que sustentam a construção, a organização e a avaliação de argumentos em textos acadêmicos, destacando aspectos como validade lógica, força argumentativa, relações de implicação e consistência entre premissas e conclusões.

Ao longo das atividades, são discutidos problemas recorrentes da escrita acadêmica, incluindo ambiguidades conceituais, generalizações indevidas, saltos argumentativos e fragilidades na articulação entre teoria, análise de dados e interpretação. O minicurso busca desenvolver competências analíticas que permitam aos participantes identificar e corrigir tais problemas, aprimorando a clareza, a coerência e a progressão argumentativa de seus textos.