Categoria: Artigo

  • Lightning! experimentando ensinar inglês e escrita criativa de microficção por meio da abordagem de tarefas

    Lightning! experimentando ensinar inglês e escrita criativa de microficção por meio da abordagem de tarefas

    Lightning!

    Experimentando ensinar inglês e escrita criativa de microficção por meio da abordagem de tarefas

    Revista Farol, v. 2, n. 1, p. 7-21, 2022

    URL: https://farol.ufc.br/pt/revista-farol-v-2-n-1-2022/

    Resumo:

    Com este artigo, apresenta-se o desenvolvimento, aplicação e análise de resultados de um minicurso de escrita criativa de microcontos em língua inglesa. Denominado Oficina Lightning e realizado de forma remota como parte das atividades de Estágio Curricular Supervisionado da licenciatura em Letras – Língua Inglesa e Respectivas Literaturas (UNEB, Campus IV – Jacobina), o curso foi embasado na abordagem de tarefas, metodologia ativa voltada para ensino de língua em contextos de uso autêntico da linguagem. Devido à pandemia de COVID-19, as aulas foram realizadas de modo remoto, mediadas pelas plataformas Google, entre maio e junho de 2021. Com duração de 40 horas, as atividades se organizaram em 4 blocos, fundamentados em Nunan (2004) e González-Lloret e Ortega (2014) quanto à construção do ciclo de tarefas; e em Smith (2013), Carvalho (2017), Nelles (2012) e Hartigan e James (2014) na conceitualização e aplicação do gênero microconto em sala de aula. A aplicação do minicurso resultou na publicação de 9 microcontos originais na mídia social Instagram, sendo esses inscritos em gêneros e estilos literários diversos.

    Palavras-chave:

    Ensino de inglês; Escrita criativa; Microconto; Tarefas.

    Abstract:

    : This paper concerns the development, application and analysis of the results of a mini course in creative writing of micro fiction in English. Titled Oficina Lightning and conducted remotely as part of the Supervised Curricular Apprenticeship for the degree in English Language and Literature (UNEB, Campus IV – Jacobina), the course was grounded in Task-Based Language Teaching, an active teaching method focused on the teaching of language in authentic contexts of language use. Due to the COVID-19 pandemic, classes were held remotely, mediated through Google platforms, between May and June 2021. With a workload of 40 hours, the activities were organized into 4 blocks, substantiated by Nunan (2004) and González-Lloret and Ortega (2014) regarding the construction of the task cycle; and by Smith (2013), Carvalho (2017), Nelles (2012), and Hartigan and James (2014) concerning the conceptualization and application of the micro fiction genre in the classroom. The application of this mini course resulted in the publication of 9 original micro stories on the social media Instagram, all inscribed into different literary genres and styles.

    Keywords:

    EAL Teaching; Creative Writing; Micro fiction; TBLT.


    Considerações iniciais

    O minicurso Oficina Lightning foi realizado entre os meses de maio e junho de 2021 como parte das atividades curriculares de Estágio Curricular Supervisionado II do curso de Licenciaturas em Letras – Língua Inglesa e Respectivas Literaturas da Universidade do Estado da Bahia, Campus IV em Jacobina. Segundo dos 4 componentes de estágio docente que fazem parte do fluxograma de graduação, esse componente é voltado para o desenvolvimento e aplicação de um minicurso a ser ofertado a membros da comunidade interna e externa à universidade, algo particularmente importante em uma cidade de pequeno-médio porte como Jacobina, com cerca de 80 mil habitantes, ainda carente de iniciativas gratuitas de cultura e lazer.

    Em virtude da pandemia de COVID-19 e do consequente distanciamento social, o minicurso foi ministrado inteiramente por meio de mediação digital, o que possibilitou a participação de pessoas de diferentes cidades e estados; os próprios ministrantes deram aulas a partir das diferentes municipalidades baianas em que moram, a saber, Capim Grosso, Jacobina e Várzea do Poço.

    Com carga de 40 horas, a proposta da Oficina Lightning visou a explorar práticas de leituras e escritas por meio do gênero microconto, motivada pelo fato de o ensino de Inglês como língua adicional ser um campo ainda limitado no que se refere a estimular a produção escrita de ficção ao invés de gêneros acadêmicos (SMITH, 2013). A proposta surgiu da sobreposição dos interesses dos 3 ministrantes, culminando na busca pela exploração da escrita criativa como potencial para desenvolvimento léxico e uso crítico da língua inglesa através de uma metodologia ativa.

    A metodologia adotada pautou-se na abordagem de tarefas (Task-Based Language Teaching, ou TBLT), ancorada em David Nunan (2004), que coloca o estudante como o centro das atividades, facilitando a aproximação com a língua adicional. Essa abordagem nos permitiu trabalhar com um público livre e diverso, com idades variando entre 14 e 25 anos, escolaridade entre Ensino Médio incompleto e Ensino Superior completo, e proficiência em língua inglesa entre os níveis básico e intermediário.

    O fator comum entre todos, entretanto, foi o hábito da leitura de ficção, alguns já tendo experimentado também a escrita ficcional. Assim, para nortear as atividades de leitura e escrita, foram utilizados microcontos produzidos por escritores de diversos gêneros e estilos literários, simultaneamente aumentando o repertório de leitura dos participantes, e guiando as múltiplas decisões estruturais e temáticas que esses tiveram de tomar na escrita.

    Buscamos planejar considerando os desafios mais patentes da proposta, a saber, limitações dos participantes quanto ao vocabulário na língua alvo, ao conhecimento analítico e normativo de gramática, e ao próprio esforço criativo-textual da escrita. Esses obstáculos foram mitigados em grande parte através do uso de tecnologias digitais, que proporcionaram recursos para pesquisa, comunicação com os ministrantes e colegas, e acesso a materiais de apoio. Tal uso extensivo da tecnologia requer certo nível de letramento digital, sendo esse um fator determinante na experiência de uso. Assim, nos planejamos também para dar suporte na operação das ferramentas escolhidas, e com isso reportamos excelente aderência à proposta e ao modelo digital.

    As ferramentas online utilizadas foram majoritariamente as mantidas pela Google:Formulários para inscrição e listas de presença, Meet para encontros síncronos e Sala de Aula para atividades assíncronas e acesso a materiais. A opção por elas se deu pelo seu acesso simples e gratuito, sua variedade de funções e sua popularidade, aumentando as chances de os participantes as utilizarem com desenvoltura. Além disso, a mídia social Instagram foi empregada para divulgação e publicação dos microcontos produzidos.

    Ao longo do artigo, exploramos os conceitos e termos-chave fundamentais no desenvolvimento da proposta, bem como seus embasamentos teóricos, e a metodologia utilizada no planejamento e realização do minicurso. Em seguida, detalhamos a aplicação e resultados obtidos, esses últimos referentes à preparação e publicação dos microcontos escritos pelos participantes.

    Fundamentação dos conceitos

    O ensino de Inglês como língua adicional (ILA) é um campo ainda limitado no que se refere a estimular a produção escrita de ficção ao invés de gêneros acadêmicos. Cameron Smith, no artigo Creative writing as an important tool in second language acquisition and practice, conceitua essa limitação como um paradoxo, apontando que, apesar dos textos mais socialmente prestigiados em qualquer linguagem serem aqueles de natureza criativa (como ficção, canções e poemas), na sala de aula professores de ILA geralmente desenvolvem atividades focadas em gêneros textuais factuais e/ou de opinião, como descrições, redações e reportagens (2013, p. 12). Partindo dessa premissa, o minicurso se inspirou também em Shannon Sauro e Björn Sundmark (2016) e buscou explorar o potencial da escrita criativa em desenvolver língua principalmente a nível de léxico, através da abordagem de tarefas pautada em Nunan (2004).

    O próprio termo “tarefa” é foco de divergências de ordem semântica e teórica, a exemplo do contraste entre a definição de Michael H. Long (1985), cuja descrição ampla para o termo é o de quaisquer atividades executadas na vida cotidiana, desde preencher um formulário a pintar uma cerca, portanto compreendendo que tarefas podem ou não serem desempenhadas fazendo uso da língua, e que não necessariamente terão resultados linguísticos; e a definição de Michael P. Breen (1987), que elucida tarefa como algo que abarca tanto um breve exercício prático quanto um plano de trabalho mais complexo voltado para estimular o uso espontâneo da língua, ou seja, compreendendo tarefa como toda prática desempenhada pelo aluno em sala de aula. Nunan define tarefa como um trabalho em sala de aula cujo objetivo é envolver estudantes na manipulação, compreensão, produção e mesmo interação na língua alvo em questão, visando promover e mobilizar o uso de seus conhecimentos referentes à gramática com fins de produzir e expressar significado em oposição ao mero foco na forma.

    Nosso trabalho foi, assim, fundamentado na definição de Nunan, acrescida de aspectos levantados por Rod Ellis (2003) e por Dave Willis e Jane Willis (2001) quanto à ênfase na necessidade de a tarefa proposta alcançar um objetivo delineado, com foco pragmático, a fim de estimular o uso da língua alvo no mundo real ou na comunicação, diferenciando concretamente tarefas de exercícios gramaticais.

    O gênero textual microconto foi conceitualizado com base em Damiana Maria de Carvalho (2017) e William Nelles (2012) no tocante a forma, convenções de escrita e efeito narrativo, como um gênero de escrita curta que visa contar uma história utilizando da brevidade no desenvolvimento da narrativa. Para além do tamanho micro, “para considerar-se um microconto, um texto deve conter: concisão, narratividade, totalidade (um todo significativo), subtexto (implícito), ausência de descrição (exceto se extremamente essencial), retrato do cotidiano e final impactante” (CARVALHO, 2017, p. 270).

    Mas, voltando ao tamanho, geralmente calculado na quantidade de palavras, diferentes autores atribuem valores máximos distintos para um microconto, muitas vezes ditados pela convenção do tamanho de uma página (NELLES, 2012, p. 89). O próprio Nelles valida a delimitação de até 700 palavras. Em nossa prática, delimitamos o valor de 1.000 palavras, que acreditamos ser suficiente para escritores com e sem experiência prévia desenvolverem uma narrativa com totalidade e impacto.

    As práticas de leitura e escrita se desenvolveram através de um ciclo de tarefas em que os participantes exercitaram no primeiro momento a escrita de si através de cover letters, um gênero textual proposto por Cathie Hartigan e Margaret James (2014), caracterizado como uma biografia ou autobiografia curta; a seguir, leram microcontos de autores, convenções estéticas e gêneros literários diversos; conheceram e elaboraram ideias de microcontos através de prompts, ou disparadoresde escrita, que motivam e delineiam temas para o desenvolvimento de uma história; e, por fim, desenvolveram a escrita de microcontos em duas etapas: o rascunho e a versão final, em um processo de feedback por parte dos ministrantes e de discussão em grupo durante encontros síncronos. Tanto o material selecionado, quanto as etapas de desenvolvimento e as habilidades linguísticas utilizadas — leitura e escrita — foram atrelados ao gênero microconto, partindo da premissa de Carvalho, de que o trabalho com microcontos “é capaz de produzir no estudante o gosto pela leitura, inclusive dos livros clássicos, e pela produção textual” (2017, p. 269).

    Metodologia da abordagem de tarefas

    Partimos da possibilidade da escrita de ficção, inserida na abordagem de tarefas, possibilitar aos participantes o uso de conhecimento linguístico prévio em inglês, e que durante a execução do ciclo de tarefas fossem desenvolvidas habilidades referentes ao emprego acurado de estruturas gramaticais e léxicas, assim como aspectos textuais da escrita como coesão, coerência e elaboração de orações complexas. Desse modo, o objetivo fundamental das tarefas elaboradas foi que elas se estabelecessem como recursos que envolvessem, de forma primária, fomentar o empenho dos participantes no uso da língua dentro de contextos autênticos da linguagem, de modo que ao longo desse processo e com metas bem delineadas, se sentissem estimulados a aperfeiçoar sua competência no uso da língua alvo. Motivação é um dos conceitos que Ellis costuma associar à ideia de uma tarefa bem desempenhada no que tange aos seus resultados; atrelado a isso, Juliane Regina Trevisol (2019) postula que tarefas realizadas com uso/suporte de tecnologia digital em sala de aula de ILA possibilita a criação de espaços interativos e criativos de forma diferenciada.

    As etapas do ciclo de tarefas tiveram como base, num primeiro momento, o conceito de análise de necessidades [needs analysis]elaborado por Marta González-Lloret e Lourdes Ortega (2014), com a escrita de si por meio de cover letters aferindo as habilidades e necessidades quanto à escrita em língua inglesa dos participantes, e apresentando seus interesses pessoais. Posteriormente, o momento de leitura com autores e gêneros literários diversos, assim como o contato com os prompts de escrita, tiveram como propósito apresentar as várias formas e caminhos de se desempenhar a tarefa principal. Junto a isso, buscamos desenvolver a dependência entre tarefas [task-dependency]exemplificada por Nunan, em que cada ação preliminar foi importante para os participantes no que diz respeito a uma melhor performance durante a tarefa principal, que nesse caso configurou a escrita de microcontos em língua inglesa, consequentemente logrando a forma mais efetiva de alcançar o objetivo da tarefa, ou seja, o texto finalizado.

    A avaliação ocorreu por meio da abordagem de critérios baseado em objetivos [objectives-based criteria] exemplificada por Nunan, que se pauta em avaliar uma dada produção ou performance com base em critérios pré-estabelecidos e, posteriormente, por meio de uma abordagem objetiva avaliar a adequação das produções a cada critério. No caso dessa proposta, a avaliação ocorreu em duas fases, a primeira se atentando ao rascunho da produção escrita e a segunda voltada para o texto final, observando os critérios de coerência, coesão, adesão ao gênero textual e literário, originalidade e diversidade lexical, sendo esses procedimentos explorados com maior profundidade na seção referente à finalização dos microcontos.

    Desenvolvimento da proposta

    O contexto pandêmico foi um período delicado em que nós enquanto docentes em formação tivemos a responsabilidade de adaptar e reinventar nossas práticas de ensino já concebidas e de apreender novas formas de dar aula, visando, num ambiente de câmeras desligadas, pouca interação e possível intervenção de fatores externos, estabelecer uma relação com o alunado que suplantasse o distanciamento social.

    A criação do projeto da Oficina Lightning se pautou no alinhamento das práticas de pesquisa dos 3 ministrantes: abordagem de tarefas e escrita criativa, literatura e Teoria Crítica, e letramento e uso pedagógico de gêneros textuais. Além disso, trabalhar uma metodologia ativa foi de comum interesse, não só no tocante ao alinhamento de práticas, mas também com o intuito de incentivar a autonomia discente e promover uma maior integração dos participantes ao minicurso.

    Buscamos também explorar uma dinâmica de leitura, discussão e produção a que já estamos familiarizados como estudantes universitários, no sentido de investigar se essa mesma estratégia se sustentaria em ambiente extrauniversitário. A aplicação da teoria sobre a TBLT teve como meta dar autonomia ao aprendizado dos participantes no que diz respeito ao conteúdo temático do minicurso, especificamente ao oportunizar a participação desses em tarefas que tiveram como principal objetivo o desenvolvimento da habilidade escrita em ficção na língua alvo.

    Na identidade visual para divulgação e materiais didáticos, escolhemos como símbolo do minicurso uma lâmpada, tanto pela relação com a faísca criativa do “ter uma ideia”, quanto para que a imagem de luz aludisse clareza para desenvolvermos um trabalho leve e prazeroso enquanto participantes e ministrantes.

    As plataformas escolhidas para instrumentalização das atividades foram 4: Google Formulários para realização e manejo das inscrições, e para manutenção de listas de presença dos participantes; Google Sala de Aula, já bastante usada por nossos professores, e que empregamos como ponto de acesso ao link dos encontros síncronos, depósito de materiais de leitura e para a postagem das atividades de produção escrita; Google Meet, também já familiar para nós, em que realizamos os encontros síncronos, e foi escolhida em virtude de sua praticidade, completude, maleabilidade e integração às demais ferramentas Google utilizadas; e Instagram, mídia social a princípio utilizada como instrumento de divulgação do minicurso, e posteriormente como local de publicação das versões finais dos microcontos, facilitando o acesso e compartilhamento da produção dos inscritos.

    Aplicação do minicurso

    O minicurso teve uma carga horária de 40 horas, sendo 20 horas destinadas a atividades assíncronas — leitura prévia dos microcontos para as discussões nos encontros, e escrita enquanto trabalho de rascunho das produções — e 20 horas atribuídas às atividades síncronas — leitura e debate de microcontos previamente selecionados, e edição das produções desenvolvidas pelos participantes.

    A intervenção foi pensada e desempenhada em blocos, estando esses intrinsecamente relacionados de maneira em que cada um lidava com conteúdos e/ou habilidades específicos do projeto, abarcando assim os processos de leitura, análise, exposição, discussão e escrita, possibilitando ao final desse encadeamento a culminância de produções finais.

    BlocoIIIIIIIV
    Carga horária4 horas síncronas;
    2 horas assíncronas.
    4 horas síncronas;
    4 horas assíncronas.
    8 horas síncronas;
    10 horas assíncronas.
    4 horas síncronas;
    4 horas assíncronas.
    ConteúdoApresentação da proposta do minicurso, plano de aulas, atividades e materiais.Exercícios de leitura (autônoma) de 15 microcontos e posterior análise e discussão.Leitura motivadora de ideias iniciais e exploração de estilos de escrita.Edição de rascunhos para a versão final, devolutivas e considerações finais.
    AtividadeEscrita I – cover letter.Imersão no gênero textual microconto.Escrita II – rascunho do microconto.Escrita III – versão final do microconto.
    Quadro 1: Blocos de atividades
    Fonte: elaborado pelos autores.

    No encaminhamento do minicurso, os Blocos I e II desempenharam papel fundamental ao introduzir as informações, conteúdos e encaminhamentos iniciais, tecendo uma relação de dependência entre si e com os blocos posteriores, a priori fomentando a construção de uma base para o desempenho da tarefa principal. Já os Blocos III e IV tiveram como objetivo introduzir e encaminhar os participantes à produção escrita em ficção, o que se deu gradualmente pelas tarefas propostas em cada um dos blocos e que culminou numa produção final para publicação.

    De forma introdutória, no Bloco I foram apresentadas as informações básicas a respeito do minicurso, essa etapa sendo crucial para a aplicação de um conceito de suma importância para diversas propostas bem desenvolvidas na área de TBLT, a análise de necessidades, que segundo González-Lloret e Ortega (2014), tem como base a analisar as necessidades — geralmente em termos de língua — do participante no que diz respeito ao desenvolvimento e implementação de uma proposta de TBLT, bem como à forma que a proposta pode ser conduzida, a saber, escolhas de tarefas, conteúdos, abordagens e ênfase dada a preferências e outras questões que podem ser trazidas pelo público alvo; além disso, em propostas mediadas por tecnologia e no ensino remoto, podem ser levantadas reflexões quanto às habilidades com recursos digitais.

    A primeira atividade de escrita, chamada cover letters — ou cartas de apresentação — logrou nos permitir acessar a algumas dessas necessidades supracitadas, ao requerer uma auto apresentação que permitiu uma breve visão dos interesses pessoais dos participantes, sendo essas de muita valia nos encaminhamentos temáticos para as propostas de microcontos a serem desenvolvidos, assim como para nossa abordagem enquanto ministrantes ao tecer referências que estivessem dentro do conhecimento de mundo dos participantes, no intuito de auxiliar a compreensão e reflexão dos conteúdos apresentados; outra noção bastante relevante que tivemos com esse instrumento foi o do nível e dificuldade de língua de cada pessoa, assim como das expectativas individuais para a escrita de um microconto em língua inglesa, sendo esse um aspecto de grande relevância para ajudar os participantes ao longo dos encontros a alcançar o objetivo final da proposta de forma efetiva, principalmente no que tange ao uso da língua alvo na escrita de ficção. A apresentação das cover letters em encontro síncrono promoveu também a interação entre os participantes, o que contribuiu para melhor conhecê-los e para a construção de um ambiente aberto à discussão e engajamento.

    O Bloco II foi reservado ao momento de leitura, análise e discussão de 15 microcontos de diversos gêneros e estilos literários, incluindo contistas consagrados como Anton Chekhov (1860-1904), Oscar Wilde (1854-1900), Kate Chopin (1851-1904) e Ernest Hemingway (1899-1961); e de grandes nomes da microficção contemporânea como Enrique Anderson Imbert (1900-2000) e Jeffrey Whitmore (c. 1948). Durante a seleção de autores e contos fomos motivados pelo propósito de oferecer aos participantes uma experiência diversificada de leitura, proporcionando identificação e inspiração para diferentes gostos, e priorizamos as narrativas cujo estilo e/ou enredo causasse maior impacto no leitor.

    Os textos desempenharam um papel de destaque ao oportunizar leituras na língua alvo, dinâmica com a qual nós estávamos familiarizados em componentes da graduação e optamos por experimentar no grupo diverso de participantes, que nos surpreenderam positivamente com sua boa receptividade, inclusive por parte dos que não eram e nunca foram estudantes do ensino superior.

    O principal atributo desse segundo bloco foi o seu papel em compor o primeiro de 7 princípios exemplificados por Nunan (2004) na implementação da TBLT: o de scaffolding ou andaime, em que as aulas e materiais iniciais fornecem estruturas de apoio nas quais a aprendizagem se fundamenta. Segundo Nunan, não se deve esperar que haja produção de língua de uma maneira que não foi previamente introduzida implícita ou explicitamente, sendo o papel do professor fornecer essa estrutura de suporte, assim como saber o momento exato de remover esse “andaime”, a saber, nem cedo demais a ponto da aprendizagem não se concretizar, ou tarde demais a ponto de o aluno não desenvolver independência para tornar autônomo o uso da língua. A leitura e discussão dos microcontos exerceram o papel de nortear e visionar as diversas possibilidades de manipular a língua por meio da escrita de microficção, dando destaque para gêneros e estilos literários diversos, pelos quais os participantes poderiam se interessar e vir a fazer uso nas produções, de acordo com suas preferências.

    O Bloco III foi o mais longo, para que os participantes tivessem mais tempo dedicado à produção escrita. Por meio de prompts — ou disparadores de enredo — os participantes tiveram a oportunidade de desenvolver uma prévia para a escrita, um momento de brainstorming que deu espaço para a reflexão das ideias levantadas até então, e realizaram a transposição dessas para a forma de rascunho, a primeira versão do que seria o microconto finalizado.

    Esse bloco evidenciou a abordagem através da dependência entre tarefas elaborada por Nunan. A relação desse conceito com a nossa proposta se torna mais perceptível ao entender que um de seus constituintes é o princípio receptivo-reprodutivo, em que no início da proposta os participantes passam mais tempo engajados em tarefas que envolvem maior receptividade — escuta e leitura — do que em tarefas de produção — fala ou escrita.

    O Bloco IV teve como objetivo finalizar a proposta de escrita e conclusão do microconto após edições e sugestões dos ministrantes. Foi também um momento imprescindível no que diz respeito à troca de experiências entre participantes e ministrantes, em que recebemos feedback, aspecto bastante relevante na TBLT. Nas discussões de encerramento, foi tópico significativo a reflexão acerca do caminho pedagógico aberto pelas tarefas propostas, e como cada uma delas foi importante para se alcançar o objetivo final do minicurso.

    Finalização e publicação dos microcontos

    Os 4 blocos resultaram na produção de 9 microcontos por 8 participantes (um deles sendo autor de 2 trabalhos), nos quais pudemos perceber o reflexo do material teórico utilizado na escrita. Após o processo de revisão, tendo sido dados os últimos ajustes, os textos finalizados foram transpostos do documento hospedado no Google Documentos para a plataforma de design gráfico Canva. A formatação se deu num template com dimensões específicas para publicações no Instagram. Findada a preparação gráfica, as 9 produções foram divulgadas no Instagram oficial do projeto, que tem por nome de usuário na mídia social @oficinalightning (ALBUS; SANTOS; JESUS, 2021).

    Desde o início do processo, na escolha dos prompts de escrita com base nas ideias que cada participante apresentava, se desenvolveu uma atmosfera de antecipação pelos rumos que cada narrativa iria tomar. Esse sentimento de expectativa se intensificou quando os rascunhos foram apresentados e pudemos ver as ideias tomando corpo, e com a produção das versões finais ficamos encantados com a inventividade, diversidade e profundidade das narrativas criadas.

    Ao realizarmos as análises objetivas, pudemos notar a precisão linguística tão valorizada em microcontos, propiciando maior atenção à estrutura sintática, coesão e coerência, e à diversidade lexical como forma de comunicar efetivamente conceitos e enredos em textos tão curtos. O critério onde encontramos mais diversidade foram os gêneros literários, algumas produções com caráter intimista, outras algo novelescas, ou ainda na fronteira com a escrita ensaística; porém foi o gênero de horror que nutriu mais produções — e diversidade — em seus subgêneros horror psicológico, cósmico e fantástico. Vale um destaque ao participante que produziu 2 microcontos, exitosamente se apropriando de gêneros literários distintos, sendo um conto de horror psicológico, e um de romance queer. Tais variações foram fruto dos interesses pré-existentes dos participantes, em justaposição a suas impressões sobre microcontos lidos nas etapas anteriores.

    Acreditamos que o propósito de explorar a criatividade por meio da escrita, de desenvolvê-la no formato do gênero microconto, e o de trabalhar utilizando a língua inglesa foi cumprido com sucesso. A qualidade das 9 produções atestou o impacto e relevância da proposta.

    O engajamento dos participantes foi o fator chave para as produções tomarem forma, em especial a abertura desses para discutir os encaminhamentos de suas propostas e colocar em prática os apontamentos que fazíamos nos rascunhos. O empenho de todos diante das ações propostas pelo minicurso fica notável no teor das produções executadas, validando o esforço e a dedicação dos envolvidos. Nós enquanto professores em formação ficamos felizes e realizados de ter conseguido promover de forma competente e prazerosa uma ação que desafiou o uso da língua inglesa com que predominantemente os estudantes têm contato, levando-os a se apropriar da língua para contar histórias originais. Foi algo inovador e enriquecedor não só para nós ministrantes, mas para vários participantes, que relataram ter sido essa sua primeira produção de escrita fictícia em língua inglesa.

    O valor das produções não passou despercebido para nós enquanto leitores de ficção. Poder oportunizar uma ação cujos resultados nos levaram ao riso, à emoção, ao choque e à reflexão foi algo muito especial, aumentando nossa confiança na possibilidade de executar propostas que promovam a língua inglesa e a escrita de ficção de forma desmistificada e acolhedora, onde a voz e a letra de cada um e de todos tem valor. Por esse motivo, ao publicar e divulgar as produções no Instagram, nos sentimos orgulhosos de nossos participantes e de nossa formação, da resiliência e parceria construída ao longo de 5 semanas de minicurso.

    Considerações finais

    Consideramos que a aproximação e o engajamento do estudante da língua inglesa em projetos visando o desenvolvimento das habilidades de leitura e escrita é, na prática, um dos maiores desafios enfrentados por professores de Inglês em todo lugar e toda etapa de ensino. Esse minicurso, como prática em um espaço não-escolar, apesar de apresentar diferenças em relação aos ambientes inteiramente escolares, foi uma experiência valiosa como locus de impulso, experimentação e inovação das práticas docentes.

    Trabalhar utilizando a TBLT nos permitiu traçar uma trajetória linear e processual, iniciando com a introdução à proposta e um pré-treino de escrita utilizando a língua alvo. Após isso, as atividades de leitura, além de praticar essa competência em particular, serviram de suporte para exemplificar e provocar a criatividade dos participantes, aproximando-os ainda mais da língua e da microficção. Depois de toda a preparação baseada nos materiais e conteúdo, as atividades práticas de escrita do microconto vieram a ser o momento de exercitar e transpor os pensamentos, passando pelos processos de construção prévia, apontamentos, edição e submissão final. Vale ressaltar que a autonomia discente foi um ponto crucial no decorrer do minicurso, desde o momento da inscrição, indo para as atividades de leitura individual, passando pela participação e interação nos encontros, e chegando à parte de escrita criativa também autônoma.

    O alinhamento dos nossos interesses de pesquisa resultou em um ciclo de tarefas que envolveu leitura, análise, discussão e escrita, onde cada etapa funcionou processualmente resultando na produção de trabalhos singulares, caprichosos e pautados em uma perspectiva crítica. Foi particularmente interessante e construtivo para nossa formação docente viver o processo de aplicação de uma metodologia ativa, e, considerando o contexto remoto e pandêmico em que a ação se desenvolveu, pudemos evidenciar a plasticidade da TBLT em se adaptar aos diversos ambientes, como também nos instrumentalizar enquanto futuros professores para os possíveis e constantes desafios levantados pelo ensino contemporâneo.

    A oportunidade de criar um projeto de Estágio Supervisionado que dialogou profundamente com nossos interesses particulares, e de aplicar esse minicurso com sucesso, mesmo em meio às incertezas da pandemia e novidade do ensino com intermediação digital, teve uma significância especial para nossa vida acadêmica e pessoal. Buscamos ao máximo alinhar nossas perspectivas pessoais de docência baseada em ensino-pesquisa, colaboração e autonomia discente, e na importância seminal da leitura e da escrita, sempre levando em conta os desafios e complexidades do ensino remoto. Acreditamos que, para uma primeira tentativa, obtivemos uma boa dose de sucesso na empreitada: os resultados foram satisfatórios aos participantes — verdadeiros protagonistas do minicurso — e a nós, gerando bons retornos de nossas supervisoras de estágio, e de outros docentes e colegas para os quais apresentamos esses resultados no I Webnário Intersetorial de Estágio Supervisionado (2021), e no VIII Congresso Latino-americano de Formação de Professores de Línguas (2021).

    Levando em conta a experiência relatada, nos sentimos realizados, enquanto docentes em formação e leitores assíduos, com a construção, aplicação e resultados do minicurso. Resgatar nossas ideias prévias e ver o quanto frutificaram foi edificante para compreendermos como, mesmo com um início receoso quanto à aplicação do que havia sido planejado, perseveramos e compartilhamos com nossa comunidade um resultado positivo.

    Somos gratos pela troca de experiências com todos os envolvidos, desde nossas professoras supervisoras, a cada um dos diferentes inscritos do minicurso que contribuíram positivamente para nossa formação enquanto docentes. Ter levado ao mundo nossa dinâmica colaborativa em trio, e recebido feedback construtivo e positivo nos motiva a continuar nos aplicando nessa forma de trabalho e nessa perspectiva de ensino-pesquisa baseada em parceria e criatividade, na esperança de a cada etapa nossa ação como professores e pessoas frutifique em uma sociedade mais democrática.

    Escolhemos, por esse motivo, encerrar esse relato com uma citação de Paulo Freire em seu livro Pedagogia da Autonomia, que para nós resume precisamente nossa experiência de formação, com nossos professores, supervisoras e orientadores como mentores, e junto a nossos alunos — passados, presentes e futuros — como constante potência: “[…] ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.” (2011, p. 17)


    Referências:

    ALBUS, M. L.; SANTOS, P. L. P.; JESUS, F. S. Oficina Lightning. Jacobina – BA, abr./jun. 2021. Instagram @oficinalightning. Disponível em: https://www.instagram.com/oficinalightning/. Acesso em 5 jul. 2022.

    BREEN, M. P. Learner contributions to task design. In: CANDLIN, C.; MURPHY, D. (ed.) Language learning tasks. Englewood Cliffs – NJ: Prentice-Hall, 1987, p. 23-46.

    CARVALHO, D. M. Microcontos no Brasil. ENTRELETRAS, Araguaína – TO, v. 8, n. 2, p. 266-281, 2017. Disponível em: https://sistemas.uft.edu.br/periodicos/index.php/entreletras/article/view/3684. Acesso em 5 jul. 2022.

    ELLIS, R. Task-based language learning and teaching. Oxford: Oxford University Press, 2003.

    FREIRE, P. Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

    GONZÁLEZ-LLORET, M.; ORTEGA, L. Towards technology-mediated TBLT: an introduction. In: GONZÁLEZ-LLORET, M.; ORTEGA, L (eds.). Technology-mediated TBLT: Researching technology and tasks. Amsterdam: John Benjamins, 2014, p. 1-22.

    HARTIGAN, C.; JAMES, M. Flash fiction and short stories. In: HARTIGAN, C.; JAMES, M. The creative writing student’s handbook. Londres: CreativeWritingMatters, 2014, p. 102-126.

    LONG, M. H. A role for instruction in second language acquisition. In: HYLTENSTAM, K.; PIENEMANN, M. (ed.) Modelling and assessing second language acquisition. Clevedon – Avon: Multilingual Matters, 1985, p. 77-99.

    NELLES, W. Microfiction: what makes a very short story very short? Narrative, v. 20, n. 1, p. 87-104, 2012. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/41475352. Acesso em 5 jul. 2022.

    NUNAN, D. Task-based language teaching. Nova York: Cambridge University Press, 2004.

    SAURO, S.; SUNDMARK, B. Report from Middle-Earth: Fan fiction tasks in the EFL classroom. ELT Journal, v. 70, n. 4, p. 414-423, 2016. Disponível em: https://doi.org/10.1093/elt/ccv075. Acesso em 5 jul. 2022.

    SMITH, C. Creative writing as an important tool in second language acquisition and practice. The journal of literature in language teaching, v. 2, p. 12-18, 2013. Disponível em: https://issuu.com/liltsig/docs/lilt-journal-2-1-2013. Acesso em 5 jul. 2022.

    TREVISOL, J. R. Investigating L2 learners’ oral production and perception of a cycle of tasks with digital storytelling: an exploratory study in technology-mediated TBLT. 2019. Tese (doutorado) – Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Inglês: Estudos Linguísticos e Literários, Florianópolis, 2019.

    WILLIS, D.; WILLIS, J. Task-based language learning. In: CARTED, R.; NUNAN, D. (ed.). The Cambridge guide to teaching English to speakers of other languages. Cambridge: Cambridge University Press, 2001, p. 173-179.

  • O paradoxo do Bildungsroman modernista

    O paradoxo do Bildungsroman modernista

    O paradoxo do Bildungsroman modernista

    Co-narrativas em Filhos e Amantes (Sons and Lovers, 1913) de D.H. Lawrence e versão cinematográfica homônima (1960)

    Miguilim – Revista Eletrônica do Netlli, v. 11, n. 1, p. 307-324, 2022

    DOI: https://doi.org/10.47295/MGREN.V11I1.233

    Resumo:

    Este artigo analisa o romance Filhos e Amantes (Sons and Lovers, 1913), de D. H. Lawrence, e sua versão cinematográfica de mesmo nome (1960), dirigida por Jack Cardiff, partindo da hipótese interpretativa de que a focalização dupla por Paul e Gertrude, estruturalmente amalgamados pelo texto do narrador, resulta em conarrativas indicativas do paradoxo da forma do Bildungsroman — circunscrito na tensão indecidível e ao mesmo tempo suplementar entre individualidade e coletivismo, tradição e experimentação. Por meio de uma leitura cerrada de excertos do romance e cenas do filme, discutimos como a dupla focalização resulta em uma aporia que inscreve em Filhos e Amantes uma dimensão de transgressão das convenções desse gênero na notável busca pelo experimentalismo característico do modernismo literário em língua inglesa. Os estudos narratológicos de Bal (2009), estilísticos de Leech e Short (2007), cinematográficos de Bordwell e Thompson (2013) e Bazin (1997), e intermidialidade de Rajewsky (2005) fundamentam a análise estrutural dos objetos, enquanto Adorno (2012a, 2012b), Beards (1974), Jeffers (2005) embasam a discussão acerca das convenções e transgressões sobre o romance de formação perpetradas por Lawrence e Cardiff.

    Palavras-chave:

    Filhos e Amantes; ponto de vista; adaptação cinematográfica; modernismo em língua inglesa.

    Abstract:

    This paper analyses the novel Sons and Lovers (1913), by D. H. Lawrence, and its film adaptation of the same name (1960), directed by Jack Cardiff, grounded on the interpretative hypothesis that the novel’s double focalisation by Paul and Gertrude, structurally amalgamated by the narrator’s text, results in co-narratives, which are indicative of the paradox of the Bildungsroman’s form — circumscribed in somewhat undecidable and supplementary tensions between individuality and collectivism, tradition and experimentation. Through a close reading of excerpts from the novel and scenes from the film, we discuss how the double focalisation results in an aporia, which, in turn, inscribes into Sons and Lovers a dimension of transgression of this literary genre’s conventions, in its remarkable endeavour to attain the experimentalism ascribed to British literary modernism. Studies in narratology by Bal (2009), stylistics by Leech and Short (2007), cinema by Bordwell and Thompson (2013) and Bazin (1997), intermediality by Rajewsky (2005) underscore the structural analysis of the objects, while Adorno (2012a, 2012b), Beards (1974), and Jeffers (2005) substantiate the discussion regarding the conventions and transgressions of the Bildungsroman perpetrated by Lawrence and Cardiff.

    Keywords:

    Sons and Lovers; point of view; film adaptation; British modernism.


    Introdução

    Publicado em 1913 pelo escritor inglês D. H. Lawrence, o romance Filhos e Amantes (Sons and Lovers) estrutura-se em duas partes: na primeira, a narrativa centra-se em torno da personagem Gertrude Morel, presa a um casamento infeliz com um marido alcoólatra e ignorante, enquanto se apega a seus filhos, em especial ao segundo, Paul; já na segunda, a narrativa acompanha como, à medida que Paul cresce, as vidas da mãe e do filho se fundem, até que a morte de Gertrude deixa Paul sozinho ao fim da história. Desde os anos 1970, o câmbio entre a transição do protagonismo iniciado por Gertrude e finalizado por Paul engendrou uma inclinação da crítica do romance a interpretá-lo como um Bildungsroman. Em 1960, Filhos e Amantes ganha uma versão cinematográfica, dirigida por Jack Cardiff, com adaptação do enredo do romance para um roteiro escrito por Gravin Lambert e T. E. B. Clark, em 103 minutos de filme preto e branco, o que lhes rendeu um Oscar por Melhor Fotografia em Preto e Branco, e um Globo de Ouro por Melhor Direção.

    Tomando como ponto de partida a peculiaridade de estruturação de Filhos e Amantes pautada no binômio “mãe + filho” (Gertrude e Paul), e em cotejo com a versão cinematográfica, propomos uma interpretação do romance a partir de uma hipótese de leitura segundo a qual a dupla focalização, formada por Paul e Gertrude, resulta em conarrativas indicativas do paradoxo da forma do Bildungsroman — circunscrito na tensão indecidível e ao mesmo tempo suplementar entre individualidade e coletivismo, tradição e experimentação — e em como tal aporia assinala em  Filhos e Amantes uma dimensão de transgressão das convenções desse gênero na notável busca pelo experimentalismo que marca o modernismo literário em língua inglesa.

    Com efeito, a abordagem de trabalho desta pesquisa em estudos literários-cinematográficos, fruto de um projeto de Iniciação Científica executado entre 2020 e 2021, foi bibliográfica-documental, no âmbito dos estudos em literatura comparada. O embasamento para os procedimentos interpretativos do romance fundamentou-se em Narratology: Introduction to the Theory of Narrative (2009), de Mieke Bal, particularmente no tocante às formas e níveis de narração, personagens e focalização. Os estudos acerca dos conceitos de narratologia de Bal forneceram o ponto de partida para o escrutínio das estratégias empregadas por Lawrence para criar o efeito de simbiose narrativa, ampliados pelo conceito estilístico de apresentação de pensamento no texto ficcional, elaborados por Geoffrey Leech e Mick Short, em Style in Fiction: A Linguistic Introduction to English Fictional Prose (2007). No tocante à análise fílmica, o ensaio de Andre Bazin, “Adaptation, or the Cinema as Digest” (1997), e o artigo de Irina O. Rajewsky, “Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality” (2005), possibilitaram o embasamento dos procedimentos de análise da adaptação da prosa literária para a sintaxe visual do cinema narrativo, enquanto David Bordwell e Kristin Thompson, em Film Art: an Introduction (2013), proporcionaram os operadores conceituais para a seleção e análise cinematográfica de cenas. Os estudos de Bazin forneceram uma moldura para a compreensão da adaptação fílmica como forma híbrida, contendo objetivo e estilo narrativo próprios, ainda que relacionada ao material do romance. Dada esta natureza híbrida da forma cinematográfica, não poderia prescindir de um debate acerca da relação de interdependência e confluência entre mídias, ancorada nos estudos de intermidialidade de Rajewsky, ao passo que Bordwell e Thompson provaram ser essenciais para um exame dos protocolos estético-narrativos do cinema clássico hollywoodiano.

    Os paradoxos estéticos na forma do Bildungsroman modernista são discutidos à luz de Theodor W. Adorno e em diálogo com Richard D. Beards e Thomas L. Jeffers. Os ensaios “Posição do narrador no romance contemporâneo” (2012a) e “Sobre a ingenuidade épica” (2012b), de Adorno, ambos parte da coleção Notas de Literatura I, orientaram a discussão no sentido de questionar discurso, forma e convenção narrativa enquanto instâncias e procedimentos conciliadores, conformadores de toda e qualquer forma de tensão e contradição; ao mesmo tempo, o artigo de Beards, “Sons and Lovers as Bildungsroman” (1974) e o livro de Jeffers, Apprenticeships: the Bildungsroman from Goethe to Santayana (2005), circunscrevem a discussão no âmbito da tradição da crítica a Filhos e Amantes como romance de formação.

    Conarrativas no Romance

    Em Filhos e Amantes, observamos que apenas um agente narrador em terceira pessoa ocupa-se da enunciação de duas estórias de forma amalgamada, alternando focalizadores e permitindo que o discurso direto seja embutido em seu texto. Chamamos essa enunciação em fusão de conarrativa — a rigor, poderíamos ter adotado o termo coestória, uma vez que estória [story] refere-se ao conteúdo do texto que produz uma manifestação e/ou inflexão particular, e está atrelada à focalização de uma personagem [actor] (BAL, 2009, p. 5), contanto, é pela fusão entre níveis e vozes estruturadoras da narrativa do romance de Lawrence que assinala-se o conceito de conarrativa — fazendo emergir uma chave de interpretação para uma hipótese de leitura desse romance notadamente distinta da encontrada em sua fortuna crítica.

    Do mesmo modo, outro ponto que contribui para pensarmos uma leitura do romance pelo viés da conarrativa pode ser encontrado nos níveis de sua narração. Como é convencional em um romance, encontramos no texto discurso direto (apresentação da voz não-intermediada das personagens), e discurso indireto (quando o narrador adota o discurso das personagens e o intermedia). Discurso indireto assinala uma forma narrativa marcadamente impessoal, ou seja, que faz referência a ações e pessoas externas à voz que narra, e intermedia o discurso sem adotar sua conotação. Conotação e emoção, por sua vez, encontram-se geralmente associadas ao discurso direto e à linguagem pessoal da narração em primeira pessoa. Entretanto, nos estudos sobre ponto de vista na prosa literária, pouco se constata sobre o fenômeno da conotação e/ou emoção enunciada pelo narrador em relação às situações das personagens, a saber, uma espécie de curto-circuito entre linguagem pessoal e impessoal que ainda é intermediada, qualificada por Bal como linguagem pessoal em segundo nível (2009, p. 52). Essa forma aglutinada de narrar é denominada por críticos contemporâneos, como Rick Rylance e Violeta Sotirova1, de discurso indireto livre, em concordância com a classificação textual e estilística. Bal, por sua vez, considera discurso indireto livre quando há interferência entre a linguagem pessoal da personagem e a impessoal do narrador, sinais de linguagem pessoal em referência a uma personagem, estilo pessoal atribuído a uma personagem e o discurso traz mais detalhes do que o necessário para o enredo [fábula].

    No caso de Filhos e Amantes, as aglutinações narrativas apresentam traços apenas das duas primeiras condições levantadas por Bal (interferência entre linguagem pessoal e impessoal, e linguagem pessoal em referência a uma personagem) para o discurso indireto livre, sendo a segunda mais acentuada, uma vez que a interferência entre linguagem pessoal e impessoal também pode ser explicada pela relação entre o nível primário da narrativa (o texto do narrador) e textos embutidos nele: o discurso direto e a linguagem pessoal em segundo nível (ou apresentação de pensamento).

    Já para Leech e Short (2007), o discurso direto apresenta-se convencionalmente entre aspas — ou após travessões — indicando citação direta da fala da personagem, possuindo marcas de pontuação indicativas de citação e sendo independente sintaticamente do texto ao seu redor, acompanhado ou não de verbos declarativos. Por sua vez, a apresentação de pensamento pode ser identificada em passagens cuja enunciação indica que a configuração estilística afeta a intermediação de discurso pelo narrador, a ponto de esta intermediação parecer mínima e opaca, resultando na impressão de que a enunciação reflete a consciência da personagem sem nenhuma forma de mediação — o típico recurso de apagamento de narração em terceira pessoa, ou elisão entre terceira e primeira pessoa, explorados na prosa literária de modernistas como Henry James e James Joyce.

    À guisa de melhor ilustrar de que maneira tais operadores sucedem em Filhos e Amantes, de modo a firmar uma estruturação narrativa dupla de conarração, elegemos quatro excertos do romance para examinar as características até aqui descritas e que constituem as conarrativas intermediadas pelo texto do narrador, bem como, as peculiaridades e particularidades constitutivas em cada uma delas: o primeiro, no capítulo quatro, demonstra a linguagem pessoal de focalização ambígua; o segundo, no capítulo cinco, a alternância de focalizador; o terceiro, no capítulo seis, o encaixe do discurso direto; e o quarto, na última página do romance, a dissolução da enunciação do narrador. Além disso, atentamos, por meio da análise dos excertos, aos seguintes aspectos: ação e emoção no texto do narrador, apresentação de pensamento ou de fala, focalização, e níveis narrativos, sendo os dois últimos os aspectos que circunscrevem os demais. Vejamos o primeiro excerto cuja linguagem pessoal resulta em uma focalização ambivalente: “Paul was waiting for her. He loved her home-coming. She was always her best so — triumphant, tired, laden with parcels, feeling rich in spirit.” (LAWRENCE, 1995, p. 74)2.

    Aqui, a narrativa em nível primário — com linguagem pessoal justaposta em segundo nível referindo-se à situação de Paul e de Gertrude — é evidenciada pelo tempo verbal passado e pelos pronomes em terceira pessoa, prova da intermediação, ou seja, do texto do narrador. Por conseguinte, as ações descritas encontram-se organizadas pelos verbos waiting e coming, enquanto as emoções pelos verbos loved e feeling, complementados pelos adjetivos triumphant, tired, laden e rich. Os verbos, nessa segunda categoria, indicam a tipologia de apresentação de pensamento: o pensamento indireto, marcado pelo uso de terceira pessoa e por verbos declarativos (to love, to feel). A focalização é notadamente ambígua, podendo ser interpretada de duas formas: duas sentenças e dois focalizadores (Paul e Gertrude), ou duas sentenças e um focalizador (Paul) que pelo contexto atribui à mãe pensamentos e sensações.

    Passemos agora para o segundo excerto acerca da alternância do focalizador:

    Paul watched her go up the road between the hedges – a little, quick-stepping figure, and his heart ached for her, that she was thrust forward again into pain and trouble. And she, tripping so quickly in her anxiety, felt at the back of her son’s heart waiting on her, felt him bearing what part of the burden he could, even supporting her. (LAWRENCE, 1995, p. 85)3

    Neste segundo excerto, a narrativa também é primária, com linguagem pessoal em segundo nível embutida, com a intermediação sendo responsável, além do tempo verbal passado e dos pronomes em terceira pessoa, pela descrição do cenário. Os verbos correspondentes à ação são watched e tripping; os de emoção são ached, thrust e felt, complementados pelos substantivos pain, trouble, anxiety e burden. A apresentação de pensamento se opera por meio do relato narrativo de atos de pensamentos: ao caracterizar Gertrude como “a little, quick-stepping figure, […] thrust forward again into pain and trouble”, o narrador intermedia a percepção de Paul sobre a mãe; já o pensamento de Gertrude arrola-se por meio de uma cadeia enumerativa de impressões (waiting on, bearing, supporting), como se a cada passo um novo sentido fosse atribuído ao sentimento de ser observada pelo filho, cada sentido gradualmente mais abrangente. Por esse motivo, a focalização é alternada, com o narrador focalizando através de Paul na primeira sentença, e de Gertrude na segunda.

    Seguindo para terceiro excerto, no qual encontramos o encaixe do discurso direto, observamos a seguinte estruturação:

    The blouse was white, with a little sprig of heliotrope and black.

    “Too young for me, though, I’m afraid,” she said.

    “Too young for you!” he exclaimed, in disgust. “Why don’t you buy some false white hair and stick it on your head.”

    “I s’ll soon have no need,” she replied. “I’m going white fast enough.”

    “Well, you’ve no business to,” he said. “What do I want with a white-haired mother?” “I’m afraid you’ll have to put up with one, my lad,” she said rather strangely. (LAWRENCE, 1995, p. 122)4

    Neste trecho, encontramos o discurso direto embutido no nível primário da narrativa, com a intermediação do narrador aparecendo na presença de aspas, na descrição de objetos e nos verbos declarativos, ou dicendi, (said, exclaimed, replied). Sendo uma forma de texto não narrativo, o discurso direto ilumina evidências diferentes: as ações são inferidas através do que é dito pelas personagens, e as emoções aparecem na forma de conotação, ou seja, exclamações e interrogações na fala de Paul, o que, por contraste, confere certa monotonia à fala de Gertrude, indicando, a nível interpretativo, que o diálogo é uma altercação entre mãe e filho. Ainda assim, há focalização nos interlúdios, alinhada a Paul, que “exclaimed, in disgust” e é quem ouve e identifica o tom de voz “rather strange” da mãe.

    Passemos agora ao quarto e último excerto, no qual nos deparamos com a dissolução da enunciação do narrador no final do romance:

    But no, he would not give in. Turning sharply, he walked towards the city’s gold phosphorescence. His fists were shut, his mouth set fast. He would not take that direction, to the darkness, to follow her. He walked towards the faintly humming, glowing town, quickly. (LAWRENCE, 1995, p. 420)5

    Nesse trecho, vemos o desvanecer da enunciação do narrador, que, ao ser forçado a focalizar Paul sozinho, após a morte da mãe, adota sentenças curtas e entrecortadas, marcadas pela repetição dos pronomes pessoais he e him, e encerra a narrativa numa ação inacabada (walked quickly). Sem mais o que intermediar, o nível primário da narrativa torna-se nulo, sem função, e desfaz-se.

    Assim, é possível observar como o nível primário da narrativa, ao focalizar através das personagens e apresentar seus pensamentos, está sempre alocando as personagens em relação uma à outra; Paul é delineado pelo que sente pela mãe (love, ache, disgust), Gertrude é delineada por como age ao redor do filho (triumphant, tired, waited on, supported, strange). A ligação — e tensão — entre os dois é o que dá corpo ao texto, tornando-o uma espécie de diálogo intermediado pelo narrador, uma narrativa construída a dois — ou seja, uma conarrativa — e que ao deixar de existir, leva à morte não apenas de Gertrude, mas também a dissolução do próprio narrador. Na próxima seção, examinaremos de que maneira esse imbricado e complexo procedimento narrativo é transposto para a linguagem fílmica pelo diretor Jack Cardiff e pelo roteirista Gravin Lambert, de modo a recriar esta estruturação por meio das convenções narrativas cinematográficas minimamente análogas ao romance de Lawrence.

    Conarrativas no Filme

    Seja do ponto de vista epistemológico quanto em sua forma e recepção, romances e filmes são meios narrativos marcadamente distintos: a forma do romance se esforça para se antecipar à imaginação do leitor, enquanto a do filme se submete ao olhar do espectador. A despeito da longa e já bem estabelecida tradição teórico-crítica acerca das relações de proximidade e diferenças entre a prosa literária e a fílmica, já nos anos 1940, Bazin (1997) propunha criticar um debate sobre adaptações de obras literárias pautado unicamente no critério de equivalência de significados entre as obras, abordagem que permite valorizar (e valorar) cada objeto no que de fato pode oferecer como arte. Por isso, optamos por apontar elementos na composição da adaptação de Filhos e Amantes que criam efeitos semelhantes aos que níveis narrativos, focalização e apresentação de pensamento, criam no romance.

    O primeiro ponto a destacar seria o fato de como o filme renuncia ao recurso da narração em voice-over, prescindimos do acesso textual nos quais encontram-se arrolados os pensamentos das personagens fora do discurso direto, o que, por sua vez, imediatamente exclui a exploração através da apresentação de pensamento assinalada na análise da prosa do romance. Porém, níveis narrativos e focalização, nos parâmetros de Bal, ainda podem ser analisados em narrativas visuais, mesmo que com modus operandi particularmente distinto. Ou seja, a focalização visual pode ser acessada através dos vários aspectos que compõem elementos como mise-en-scène e cinematografia, categorias que, a rigor, fornecem uma lógica interna ao filme da mesma forma que os elementos da narrativa literária conferem à estrutura do romance.

    Nesse quesito, Bordwell e Thompson conceitualizam uma forma de narração marcadamente cinematográfica, composta pela forma como o enredo distribuiu informações a fim de alcançar certos efeitos (2013, p. 87), narração que podemos entender como equivalente ao nível primário da narrativa conceitualizado por Bal — no caso do cinema, este nível intermedia o efeito sinestésico criado pelo focalizador cinematográfico na estória, papel que pode ser desempenhado pela própria câmera ou pelos atores. Adicionalmente, diálogos e rubricas do roteiro são como textos embutidos na narrativa cinematográfica, e podem ser abordados analiticamente como tal.

    Nesse sentido, nossa análise da versão fílmica de Filhos e Amantes destaca quatro conjuntos de elementos: a câmera como primeiro nível narrativo, os diálogos, o ângulo e movimento de câmera, e o enquadramento, exemplificados em um trecho do roteiro e mais cinco cenas que trazemos na forma de fotogramas.

    Vejamos como os fotogramas abaixo permitem uma compreensão de como a câmera opera no primeiro nível da narrativa:

    Fotogramas 1 a 4 — Nível primário da narrativa
    Fonte: Captura do filme Filhos e Amantes (1960)

    A apresentação das personagens no filme, na cena acima (02min 09s até 02min 14s), capturada por meio dos quatro fotogramas, é feita de modo a evidenciar o posicionamento da câmera como nível primário da narrativa, como agente narrador que engloba e intermedia toda ação e emoção de forma voyeurística, invadindo a casa dos Morel, focando nas costas de Gertrude, que, desconhecendo essa lente que a observa, acorda e chama pelo filho à meia-luz do amanhecer.

    A seguir (03min 04s até 03min 19s), podemos observar a escolha de adaptar literalmente um diálogo do romance:

    (GERTRUDE) It’s too young for me.

    (PAUL) Oh, it’s too young, is it? Why don’t you buy some false white hair and stick it on your head?

    (GERTRUDE) I’ll be white, soon enough. (PAUL) Don’t you dare! What would I want with a white-haired mother?6

    Este diálogo é quase idêntico ao encontrado nas páginas 138 e 139 do romance, porém, não apenas em relação ao seu conteúdo. A conotação do texto do romance se transforma em entonação através dos atores, e é executada com a mesma cadência evocada no romance, criando o mesmo efeito de altercação, realçando a tensão familiar entre as personagens.

    Fotogramas 5 a 10 — Movimento de câmera
    Fonte: Captura do filme Filhos e Amantes (1960)

    A cena em que o diálogo está inserido (02min 58s até 03min 19s) é dedicada a apresentar ao espectador os pormenores da relação entre mãe e filho. Enquanto Paul, casualmente,0 se prepara para sair (fotogramas 5 e 6), Gertrude arruma a mesa para o café da manhã (fotogramas 7 e 8); a câmera se move de um lado para o outro, seguindo o movimento da mãe e simulando o olhar do espectador; Paul segue e encara a mãe, questionador. Apenas quando a câmera se detém em Gertrude (fotogramas 9 e 10), enquadrando-a em close-up médio e isolando-a de Paul, é que a expressão do rosto dela revela algo de seus sentimentos íntimos de apreensão, focalizando a narrativa nela.

    Fotograma 11 — Enquadramento
    Fonte: Captura do filme Filhos e Amantes (1960)

    O fotograma 11, de uma cena mais adiante no filme (12min 40s), evidencia uma qualidade quase pictórica, evocando a estética de retratos de família edwardianos. As proporções dos atores no enquadramento — William, irmão mais velho, em primeiro plano; Paul, irmão do meio, em segundo plano; e a mãe diminuta no centro — compõem um quadro cuja disposição assinala tanto a ordem de nascimento dos filhos quanto o grau de proximidade que cada um tem com a mãe, algo reforçado pela mão de Paul no encosto da cadeira. Esse retrato também se conecta com o contexto da cena, logo após o funeral do irmão mais novo, Arthur: o pai ausente e o filho morto correspondem ao espaço negativo entre os atores, que é preenchido pelo cavalete de pintura de Paul e pela coleção de louças de Gertrude.

    Fotogramas 12 e 13 — Ângulo e enquadramento
    Fonte: Captura do filme Filhos e Amantes (1960)

    Os fotogramas 12 e 13 contrastam cenas no início (10min 41s) e no final (83min 45s) do filme, respectivamente. Ambas são close-ups médios, cujo foco da cena enfatiza o olhar dos atores. Na primeira (fotograma 12), o ângulo baixo e a câmera inclinada acentuam a tensão na postura das personagens, com Gertrude se apoiando no filho, que segura sua mão; o efeito visual sugere que os dois estão recuando diante de um ataque, ambos olhando para essa ameaça fora da cena, e se relaciona tematicamente com o excerto na página 99 do romance, em que Gertrude se sente amparada por Paul num momento de dor — no caso do filme, a morte do filho Arthur. Na segunda (fotograma 13), o ângulo frontal novamente constrói-se por meio de recursos pictóricos: a luz acentua o rosto de ambos, mas parece partir do rosto — e sorriso — de Paul; o enquadramento tem proporções áureas, espiralando a partir dos olhos da mãe, absorta no filho; o efeito generalizado é de iconografia sugestivamente religiosa, como numa pintura renascentista de efeitos tridimensionais. A composição de quadros examinada nos fotogramas acima assinala como, nos processos de transposição do texto literário para o formato cinematográfico, a natureza híbrida da forma fílmica amplia o escopo unidimensional do signo verbal para uma multidimensionalidade envolta nos processos de transposição midiática. No caso em particular da versão cinematográfica de Filhos e Amantes, nota-se que a confluência entre diálogos adaptados, enquadramento, movimentos de câmera e recursos pictóricos de natureza renascentista resultam da combinação de uma fusão entre mídias, denominada por Rajewsky (2005) como referências intermidiáticas, isto é,a mais ampla das três categorias conceituais arroladas nos estudos de intermidialidade.7

    Logo, a relação de codependência entre Gertrude e os filhos é adensada na versão fílmica por meio da mobilização de uma série de elementos advindos de outras formas artísticas para além da literatura e do cinema: a interpolação entre mãe e filho toma dimensões performativas características dos diálogos da arte dramática do teatro; os enquadramentos e composições de quadros valem-se de técnicas de tridimensionalidades e formas simétricas incorporadas das pinturas renascentistas, e, com veremos na análise dos fotogramas abaixo, são posteriormente amplificadas pelo advento das técnicas fotográficas vitoriana e edwardiana.

    Fotogramas 14 e 15 — Câmera como narrador
    Fonte: Captura do filme Filhos e Amantes (1960)

    Por fim, a cena derradeira do filme (98min 05s até 98min 23s) acessa o mesmo desvanecimento do narrador que vemos no final do romance: a câmera, presa à plataforma (fotograma 14), é ignorada e abandonada pelo agora solitário Paul, que passa por ela e embarca em um vagão (fotograma 15). De modo que a narrativa cinematográfica se encerra, também, em uma ação incompleta, neste caso a viagem de trem.

    Cabe ressaltar que, no plano estético, assim como na composição de quadro, mise-en-scène e fotografia, Jack Cardiff opta por uma direção de cenas instrumentalizando a estética característica do Cinema Clássico de Hollywood, que prioriza a forma clássica e simétrica do renascentismo, algo herdado pelo cinema através das convenções fotográficas vitoriana e edwardiana. Assim como nas pinturas e fotografias que o antecederam, o filme consegue evocar sentimentos de forma ordenada e relativamente previsível através da atuação da câmera como nível primário da narrativa, algo importante numa mídia voltada para o consumo público. Na versão fílmica de Filhos e Amantes, esse aparato estético e perfil de consumo favorecem o próprio enredo da narrativa, uma vez que este se baseia na constante tensão entre filho e mãe, indivíduo e família, público e privado.

    O Paradoxo do Bildungsroman

    Como já assinalado anteriormente, Filhos e Amantes foi inscrito no gênero Bildungsroman — o romance de formação ou de aprendizagem — pela primeira vez na década de 1970 através de Richard D. Beards, no artigo “Sons and Lovers as Bildungsroman” (1974), se contrapondo à crítica psicológica e à crítica autobiográfica, até aquele momento, as mais proeminentes chaves de interpretação para o romance de Lawrence.8 Rompendo com essa tendência crítica vigente, Beards defende uma posição interpretativa baseada nas características convencionalmente atribuídas ao Bildungsroman: uma estória definida ao redor de seu protagonista, o indivíduo aprendiz cujos conflitos e escolhas orientam o enredo, e cujos pensamentos, sensações e emoções servem como “lente” para focalizar a narrativa; e em seu argumento compartimentaliza enredo e personagens, focando em explicitar como a jornada de Paul encontra-se notadamente mais demarcada pelas convenções do romance de formação, do que pela representação semiautobiográfica do complexo de édipo do próprio Lawrence juvenil.

    Desde a interpretação de Beards, tornou-se lugar-comum ler Filhos e Amantes em uma chave interpretativa de Bildungsroman, com Paul como o protagonista-aprendiz. Um exemplo contemporâneo da durabilidade desta chave de leitura é o capítulo “Lawrence’s Sons and Lovers: “We children were the in-betweens” de Thomas L. Jeffers, que considera Filhos e Amantes “um dos supremos Bildungsromane em inglês” (2005, p. 135, tradução nossa).

    Como forma, o Bildungsroman tem suas origens nos ideais educacionais do Iluminismo, sendo o primeiro de sua espécie Os Anos de Aprendizado de Wilhem Meister, de Goethe, influenciado pelas Cartas Sobre a Educação Estética do Homem, de Schiller (JEFFERS, 2005, p. 2). Em distinção do romance biográfico e da epopeia, o protagonista do romance de aprendizagem não nasce completo e heroico, é na própria narrativa que se põe a prova seu valor como ser humano, valor este que deve ser conquistado pela educação, ou aperfeiçoamento. Ao se expandir além das fronteiras da tradição romanesca germânica, o Bildungsroman mantém sua estrutura nuclear, mas a moral e a cultura determinantes do como e do que se trata o valor do protagonista divergem, com a tradição inglesa — que tem como expoentes convencionais Thackeray e Dickens, em especial — atribui igual importância à aprendizagem mental e sentimental, e à familiar e social (JEFFERS, 2005, p. 35-36).

    Inserido na Inglaterra marcada pela dissonância entre o progressismo industrial e o arcaísmo aristocrático, o Bildungsroman se constitui como a estória do indivíduo versus um sistema sufocante, comumente representado pela cidade grande, com ruas labirínticas e fétidas, onde o protagonista, desgarrado da família e da comunidade onde nasceu, precisa sobreviver e prosperar.

    Tematicamente, a interpretação de Beards — e, por tabela, a de Jeffers — são refinadas e responsáveis por emoldurar Filhos e Amantes numa perspectiva ainda inovadora. Jeffers, em particular, analisa excepcionalmente o esfacelamento do senso de família e comunidade na Inglaterra vitoriana: a tensão de gênero criada pela divisão de tarefas entre mãe doméstica e pai operário, o materialismo restritivo de não mais poder contar com a terra para se alimentar, e o individualismo da sexualidade reprimida.

    A nosso ver, porém, ambas interpretações negligenciam dois aspectos basilares de Filhos e Amantes: o primeiro deles, como apontado no início de nossa discussão, é o duplo protagonismo, a que se somam as focalizações ambíguas e alternantes já exploradas, que efetivamente desestabilizam a lente individualista característica do Bildungsroman convencional.

    O segundo aspecto concerne à própria estética do romance modernista, muito mais propenso à apropriação de convenções estético-narrativas com vistas a subvertê-las e recriar algo novo — como já na tão conhecida máxima do poeta Ezra Pound acerca do modernismo, make it new — do que de fato utilizá-las como uma forma de reafirmação de protocolos já convencionalmente estabelecidos. Com efeito, Beards desloca Filhos e Amantes dessa estética ao compará-lo a outros romances das mais diferentes inclinações e períodos de produção; e mesmo a comparação com Um Retrato do Artista Quando Jovem, publicado por James Joyce apenas três anos depois de Filhos e Amantes, e talvez o mais célebre dos Bildungsroman modernistas, é feita en passant e focada em um elemento microscópio do enredo. A supressão da discussão em torno do Bildungsroman modernista subtrai a possibilidade de uma interpretação que favoreça fatores que tornam Filhos e Amantes único entre seus pares modernistas, alinhando-o anacronicamente à grande tradição romanesca do romance de formação do século XIX, notadamente em decadência enquanto estética narrativa nas primeiras décadas do século XX, quando Lawrence publica seu romance.

    Ou seja, considerando descritivamente o enredo e como apontado na primeira seção desse artigo, Filhos e Amantes poderia ser considerado um romance abarcando duas trajetórias de amadurecimento: a de Gertrude, definida pelo conflito entre sua natureza e as limitações impostas à sua condição de mulher; a de Paul, de embate contra a estratificação de classe e moral. Porém, como vimos, textualmente não há segmentação entre mãe e filho, em que o anulamento de um, no caso a mãe, abre caminho para o surgimento de outro, o filho; contrariamente, a narrativa depende de ambos, o narrador enuncia Gertrude e Paul amalgamados em um só plano, indissociáveis, tanto que a morte de Gertrude, ao final, só pode resultar no apagamento de sua contraparte, Paul.

    Outra possibilidade interpretativa poderia, então, ser feita a partir de uma hipótese de que Filhos e Amantes se trata de um romance de saga familiar: a mãe e o filho fundem-se na medida em que ela passa adiante, às mãos do filho, a herança de sua existência. Para tentar ilustrar e explorar essa possibilidade, tomemos como exemplos outros romances de formação modernistas — reiteramos aqui como exemplos-chave o já mencionado Um Retrato do Artista Quando Jovem (A Portrait of the Artist as a Young Man, 1916), e A Jornada Mais Longa (The Longest Journey, 1907) de E. M. Forster — que também trazem em si o conflito da herança familiar, manifestando-a como imanentemente negativa: Stephen Dedalus é levado à cisão de toda tradição, enquanto Rickie Elliot é engolido e morto por ela. Paul Morel, por outro lado, se fortalece na fusão com sua progenitora.

    Os conceitos de fusão de consciência — ou espírito — e de infinitude são constantes na ficção de Lawrence, algo que Beards reconhece no fim de sua análise, sem, contudo, desenvolvê-los em uma formulação mais substancial. As modulações de focalização e a tensão conarrativa observadas em Filhos e Amantes são a realização linguística e, consequentemente, também recriadas na versão cinematográfica, da fusão de consciências. Já a infinitude, conceito discutido por Adorno (2012a, 2012b) no contexto da crítica da arte moderna, pode ser atestada na impossibilidade de uma desindividualização narrativa entre Gertrude e Paul. O romance — cuja tarefa convencionalizada é dominar artisticamente a existência — é historicamente marcado como forma por seguir uma razão inerentemente burguesa, ao tentar representar a experiência universal através do protagonista; no caso do romance de formação, a tentativa de dominação da existência aconteceria no confronto entre indivíduo-jovem e coletividade-tradição. Essa razão é uma contradição literal e filosófica: os conflitos experienciados pelo indivíduo supostamente representam a própria cultura estética e moral em que este se insere, porém, a cultura burguesa é coletiva e pactual, e mediada por estruturas e convenções.

    Essa aparente contradição aparece na dialética da forma (ADORNO, 2012b, p. 49), que transforma o indivíduo em herói antimitológico, pretensamente esclarecedor na medida que a estória forjada pelo texto do narrador a partir dele é uma análise [anamnesis] da existência. A pretensão de esclarecimento baseia-se na ideologia de que o agente narrativo seria capaz de, através da enunciação e focalização embricadas no nível primário da narrativa, apreender o mundo num “processo de individualização, como se o indivíduo, com suas emoções e sentimentos, […] ainda pudesse alcançar algo por si mesmo” (ADORNO, 2012a, p. 56-57). Assim, desindividualizar a narrativa configura-se como gesto de transgressão da forma convencional do Bildungsroman, um movimento dialético com a natureza da própria linguagem do romance, que de outro modo faria de Filhos e Amantes apenas um romance de formação com inclinações naturalistas tipicamente novecentista e, portanto, em descompasso com seu tempo. Despedaçada, a forma deixa à mostra seu paradoxo: não há esforço de mimesis da existência que vença a supremacia da matéria sobre a sintaxe; o esforço de dar nexo ao texto evidencia a incoerência deste, uma vez que a matéria não tem nexo próprio.

    Nesse evidente impasse paradoxal reside a infinitude, o fracasso do agente narrador totalizador que oscila entre dominação e conciliação. Ao amalgamar Gertrude e Paul, perfurando o nível primário da narrativa — justamente aquele responsável por torná-la harmônica — Filhos e Amantes se constitui no que Adorno denomina de uma epopeia negativa (2012a, p. 62). Não há mais protagonista representante total do sofrimento universal de amadurecer; no romance moderno de língua inglesa, no qual Lawrence inscreve-se juntamente com tantos outros modernistas, o narrador torna-se a figuração reconhecida e propositalmente falha dos limites da ficção.

    A partir desta ótica, o encerramento do romance e do filme, momentos em que Paul questiona o futuro diante do trauma da morte da mãe, são uma verdadeira epifania de dissolução: não do protagonista solitário, que diante da enormidade do infinito cerra os punhos, deixa a floresta de sua juventude e embarca em um trem, a benesse da modernidade, que parte rapidamente em direção às vicissitudes e atribulações da cidade; mas sim do narrador abandonado na noite, com sua câmera fixada à plataforma da estação, e que, sem seus focalizadores, deixa de enunciar. A ele, só cabe silenciar-se, pois, “o resto é silêncio”.


    Referências:

    ADORNO, T. W. Posição do narrador no romance contemporâneo. In: ADORNO, T. W. Notas de Literatura I. 2. ed. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2012a, p. 55-63.

    ADORNO, T. W. Sobre a ingenuidade épica. In: ADORNO, T. W. Notas de Literatura I. 2. ed. Tradução de Jorge de Almeida. São Paulo: Duas Cidades; Editora 34, 2012b, p. 47-54.

    BAL, M. Narratology: Introduction to the Theory of Narrative, 3. ed. Toronto: University of Toronto Press, 2009.

    BAZIN, A. Adaptation, or the Cinema as Digest. In: BAZIN, A. Bazin at Work. Tradução de Alain Piette e Bert Cardullo. New York: Routledge, 1997, p. 41-51.

    BEARDS, R. D. Sons and Lovers as Bildungsroman. College Literature, West Chester, v. 1, n. 3, p. 204-217, 1974.

    BORDWELL, D.; THOMPSON, K. Film Art: An Introduction, 10. ed. New York: McGraw-Hill Education, 2013. 

    FORSTER, E. M. The Longest Journey. London: Blackwood, 1907. Disponível em: https://www.gutenberg.org/cache/epub/2604/pg2604-images.html. Acesso em: 29 out. 2021.

    JEFFERS, T. L. Apprenticeships: the Bildungsroman from Goethe to Santayana. New York: Palgrave MacMillan, 2005.

    JOYCE, J. A Portrait of the Artist as a Young Man. New York: B. W. Huebsch, 1916. Disponível em: https://www.gutenberg.org/files/4217/4217-h/4217-h.htm. Acesso em: 29 out. 2021.

    LAWRENCE, D. H. Sons and Lovers. London: Penguin Books, 1995.

    LEECH, G.; SHORT, M. Style in Fiction: A Linguistic Introduction to English Fictional Prose, 2. ed. Harlow: Pearson Longman, 2007.

    RAJEWSKY, I. O. Intermediality, Intertextuality, and Remediation: A Literary Perspective on Intermediality. Intermédialités / Intermediality, Montréal, n. 6, p. 43-64, 2005.

    Sons and Lovers. Direção Jack Cardiff; Roteiro T. E. B. Clarke e Gavin Lambert. Reino Unido: Jerry Wald Productions; Twentieth Century Fox Film Company, 1960.


    1. Ver o capítulo “Ideas, Histories, Generations and Beliefs: The Early Novels to Sons and Lovers” (2006) de Rick Rylance, e o artigo “Charting stylistic change: D. H. Lawrence’s handling of point of view” (2006) de Violeta Sotirova. ↩︎
    2. Paul estava esperando por ela. Ele adorava seu retorno. Ela estava sempre em seu melhor — triunfante, exausta, carregada de sacolas, seu espírito sentindo-se rico (tradução nossa). ↩︎
    3. Paul observou-a ir estrada acima, entre as sebes — uma figurinha de passos rápidos, e seu coração condoeu-se por ela, que mais uma vez era empurrada na direção da dor e dos problemas. E ela, titubeando em sua ansiedade, sentia atrás de si o coração do filho zelar por ela, sentia-o carregar o que podia do fardo, até mesmo amparando-a (tradução nossa). ↩︎
    4. A camisa era branca, com um pequeno ramo de heliotropos e detalhes pretos.
      “Porém acho muito juvenil para mim,” ela disse.
      “Muito juvenil para você!” ele exclamou, desgostoso. “Por que não compra uns cabelos brancos falsos e os cola à cabeça?”
      “Logo, logo, não terei necessidade,” ela respondeu. “Estou ficando grisalha rápido o suficiente.”
      “Ora, não sei o que isto tem a ver,” ele disse. “O que eu ia querer com uma mãe de cabelos brancos?”
      “Receio que você terá que lidar com uma, meu menino,” ela disse, algo estranhamente (tradução nossa). ↩︎
    5. Mas não, ele não desistiria. Virando-se bruscamente, ele caminhou em direção à fosforescência dourada da cidade. Seus punhos iam cerrados, seus lábios apertados. Ele não tomaria aquela direção, para a escuridão, para segui-la. Ele caminhou para a cidade, que brilhava e zumbia debilmente, a passo ligeiro (tradução nossa). ↩︎
    6. (GERTRUDE) É muito juvenil para mim.
      (PAUL) Ah, muito juvenil? Por que não compra uns cabelos brancos falsos e os cola à cabeça, então?
      (GERTRUDE) Logo, logo, estarei grisalha.
      (PAUL) Não se atreva! O que eu ia querer com uma mãe de cabelos brancos? (tradução nossa) ↩︎
    7. Em seus estudos acerca dos processos de intermidialidade, Rajewsky (2005) propõe três categorias analíticas para o estudo dos movimentos dos trânsitos entre mídias: 1) transposição midiática — uma forma de transposição direta entre uma mídia e outra, sendo a segunda derivativa da primeira; 2) combinação entre mídias — um nível mais elaborado marcado pela combinação e articulação entre mídias distintas; 3) referência intermidiáticas — descreve processos de relações entre mídias distintas superando as duas categorias anteriores por implodir noções hierárquicas, lineares ou dependência entre elas. ↩︎
    8. Ver The Deed of Life, the Novels and Tales of D.H. Lawrence (1963) de Julian Moynahan, e Oedipus in Nottingham (1962) de Daniel A. Weiss, ambos citados por Beards. ↩︎